São Cristóvão como elo entre ruptura e aproximação

A minha saudade num retrato eu guardei
Direção: Mony Mendonça e Julie Santos
Ano: 2026
País: Brasil (SE)
Duração: 20 min
Classificação indicativa: Livre

Crítica de Giulia Meneses1

Em uma São Cristóvão quente e acolhedora — cidade que, como sergipana, reconheço como território vivido, receptivo e berço da cultura do estado — parece até contraditório contar uma história sobre o abandono e distanciamento. No entanto, as diretoras Mony Mendonça e Julie Santos conseguem fazer com que mesmo a cidade-mãe do estado seja o ponto de partida de um rompimento materno. Em primeiro lugar, conhecemos Nanda Leão, acima de tudo uma mulher, que deixa para trás sua filha e sua realidade no menor estado do país ao partir para São Paulo em busca do seu sonho de ser cantora. Em segundo lugar temos Marilia, uma mulher independente e decidida que ainda não entende muito bem o porquê a sua mãe a deixou tão jovem. 

“E claro que não queria querer ir embora, se pudesse mandar em seu querer…” Assim como a Karina de Adriana Falcão no romance “A Máquina”, mãe e filha compartilham a necessidade de deixar aquele lugar que as acolhem, uma para viver o que sentia que realmente lhes pertencia, outra para preencher o vazio deixado pela repentina falta materna. 

A partir do momento em que mãe e filha se encontram novamente logo nos primeiros minutos do curta, a fotografia vívida já mostra ao espectador que a luz que envolve aquele enredo é proveniente da personificação das ruas são cristovenses. Ao colocar a cidade como plano de fundo, em cenas que parecem mostrar um local que abraça aquelas protagonistas especialmente em momentos de conflito direto, a fotografia reflete São Cristóvão como o local de reconexão, seja individual ou familiar. 

As protagonistas Livia Maria e Amanda Rodri, filha e mãe respectivamente, equilibram de forma necessária a distância emocional entre as personagens e a intensidade do vínculo materno. Entre as personagens secundárias, a figura da avó funciona como uma mediadora desde o início. A performance de Lígia Borges se destaca de uma maneira leve e decisiva, sempre como um suporte racional para as protagonistas. A atriz traz para o curta-metragem o lado empático e solícito para ambas as partes. A figura da filha mais nova, ainda que rapidamente, representa um primeiro passo para a redenção do amor de Marília. 

Já a trilha sonora 100% sergipana é impactante e necessária para manter a sensação de pertencimento que o curta nos traz. Com mãe e filha, ambas em processo de redenção, dançando juntas ao som de Chico Queiroga e Antônio Rogério, envoltas pelas palavras “Olha só para mim, veja como estou, depois do adeus, é duro a solidão…”, a escolha da canção nos faz cultivar o sentimento de sergipanidade, ao mesmo tempo, em que as protagonistas reencontram o afeto que tanto procuravam. 

Ao final, São Cristóvão deixa de ser apenas o eixo central da narrativa. É nas ruas da Cidade Mãe que o abandono ganha forma, mas também onde a redenção e a reaproximação se tornam possíveis. Ao mobilizar o espaço como território de memória, afeto e permanência, as diretoras sugerem que, por mais dolorosas que sejam as separações, físicas ou emocionais, existem lugares capazes de sustentar o retorno – onde mãe e filha não apenas se reencontram entre si, mas também com aquilo que nunca deixou de lhes pertencer.

  1. Participante da Oficina de Crítica Cinematográfica da 9ª EGBÉ, dedicada à análise dos filmes da Mostra Oficial, sob orientação da professora e pesquisadora Kênia Freitas. ↩︎