Mulheres negras articulam redes, enfrentam estruturas e reivindicam autoria no cinema 

A presença e a permanência de mulheres negras no cinema brasileiro estiveram no centro do debate “Mulheres Negras construindo o audiovisual brasileiro”, realizado dentro da programação da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro, em Aracaju (SE). Reunindo Kênia Freitas, Naira Évine e Everlane Moraes, com mediação de Ângela Alekole, a mesa articulou trajetórias, pesquisa e prática profissional para discutir autoria, circulação e condições de produção no setor.

Inserida em uma edição que tem como eixo central a contribuição das mulheres negras no audiovisual, a mesa integrou o conjunto de atividades que posicionam a EGBÉ como espaço de formulação de pensamento e não apenas de exibição de filmes. Ao longo do debate, as convidadas abordaram desde os apagamentos históricos até os desafios concretos de produção, passando pela construção de redes e estratégias de sobrevivência no campo cinematográfico.

A pesquisadora e curadora Kênia Freitas destacou que a história do cinema negro brasileiro é marcada por descontinuidades e apagamentos, resultado de um processo histórico de exclusão das imagens e das trajetórias negras. “Quando a gente olha para a história do cinema negro brasileiro, percebe que ela é fragmentada e marcada por apagamentos. Muitas dessas mulheres não foram reconhecidas no seu tempo, e só mais recentemente começam a ser incorporadas a esse debate”, afirmou.

No campo da prática, a cineasta Everlane Moraes trouxe para o centro da discussão as condições materiais de realização. Ela ressaltou que o tempo de produção de um longa-metragem pode ultrapassar uma década, especialmente diante da dificuldade de acesso a financiamento, o que impõe renúncias e atravessa a vida pessoal das realizadoras. “Faço do cinema a minha própria vida”, disse. Ao projetar sua trajetória, a diretora também indicou um horizonte de permanência no ofício, afirmando o desejo de seguir realizando filmes ao longo de toda a vida.

A pesquisadora e cineasta Naira Évine ampliou o debate ao deslocar o foco das funções mais visíveis do cinema. Para ela, é fundamental reconhecer a atuação de mulheres negras em todas as etapas da cadeia produtiva. “Ainda existe uma tendência de focar muito na direção, em quem está mais visível. Mas esquecemos de todas as outras mulheres negras que também contribuíram para o cinema: atrizes, preparadoras de elenco, secretárias, cozinheiras, motoristas. As mulheres negras sempre construíram o cinema, assim como sempre construíram o Brasil”.

As falas convergiram ainda para a análise das estruturas do setor. As participantes apontaram que festivais e espaços de circulação seguem atravessados por desigualdades de gênero e raça, impactando diretamente a inserção e a permanência de realizadoras negras. Ao mesmo tempo, a circulação por diferentes territórios foi destacada como estratégia de ampliação de repertório e fortalecimento de redes, ainda que marcada por contradições.

A mediação de Ângela Alekole, roteirista e curadora da Mostra Oficial, tensionou o debate a partir da relação entre cinema e poder de produção, destacando que o acesso aos meios de realização segue sendo um dos principais entraves estruturais. “O cinema passa pela questão do poder de produção: quem tem acesso à fala e quem tem acesso à produção de imagens. Assim como vemos precarização em áreas como educação e saúde, o cinema também passa por esses processos. E, dentro desse contexto, mulheres negras acabam sendo ainda mais afetadas”.

Outro eixo central da conversa foi a construção de redes entre mulheres negras no audiovisual, entendidas como estratégia política de permanência e fortalecimento no setor. A articulação entre realizadoras, pesquisadoras, curadoras e produtoras foi apontada como fundamental para recuperar filmografias, ampliar a circulação das obras e consolidar trajetórias. 

Essa dimensão foi destacada também pela diretora-geral da mostra, Luciana Oliveira, ao observar a formação de uma rede ativa entre essas profissionais. “Há uma consciência de estarmos em rede, com mulheres negras atuando na pesquisa, na curadoria, na produção e em diferentes áreas da cadeia do cinema, fortalecendo esse lugar dentro do audiovisual brasileiro”.

Nesse contexto, emergiu também a necessidade de estratégias como forma de garantir autonomia. As participantes relataram que, muitas vezes, é preciso assumir simultaneamente papéis criativos e de produção para assegurar controle sobre as próprias obras e evitar a perda de direitos e autoria. Como pontuado no debate, tornar-se produtora de si mesma deixa de ser apenas uma escolha e passa a ser uma estratégia para não ser absorvida por estruturas que historicamente concentram poder e recursos.

A relação entre cinema e território aparece como dimensão estruturante das trajetórias. Ao longo da mesa, Naira Évine, Ângela Alekole e Everlane Moraes compartilharam percursos marcados por deslocamentos e retornos, evidenciando que permanecer ou sair dos grandes centros é também uma decisão política. 

Naira destacou sua trajetória entre Valença, no interior da Bahia, e o Rio de Janeiro, seguida do retorno ao estado, enquanto Ângela pontuou a escolha de permanecer em Estância (SE). Já Everlane relatou sua experiência de formação em Cuba e a decisão de fixar-se em Cachoeira (BA). As falas reafirmam o compromisso com a construção de um cinema ligado aos territórios, às memórias e às narrativas locais.

Ao reunir trajetórias, reflexões e experiências de diferentes gerações, o debate evidencia que a presença de mulheres negras no cinema brasileiro se constrói a partir de articulações coletivas, estratégias de permanência e escolhas sobre onde e como produzir. Nesse processo, autoria, memória e território aparecem como dimensões inseparáveis de um fazer cinematográfico que redefine os modos de atuação no audiovisual contemporâneo.