9ª EGBÉ encerra edição histórica em noite de celebração

A 9ª EGBÉ — Mostra de Cinema Negro encerrou suas atividades no último sábado (18), com uma noite de fortes emoções e celebração coletiva. Após dez dias de programação, a Mostra celebrou o encontro entre cinema, pensamento crítico, economia criativa e comunidade. No último dia, o Centro Cultural de Aracaju e a praça General Valadão se tornaram pontos de troca, formação, circulação de ideias e fortalecimento de iniciativas culturais e econômicas.

A edição teve como tema “A contribuição das mulheres negras no audiovisual brasileiro” e propôs um olhar atento às trajetórias, obras e práticas que mulheres negras vêm construindo no cinema nacional. Ao longo de todo o evento, o legado e a contribuição dessas mulheres estiveram em evidência. A programação contou com a exibição de filmes, mesas, masterclass, bate-papos, shows, Feira do Mangaio Negro, lançamentos de livros e o Mercado EGBÉ.

A cerimônia de encerramento, assim como a de abertura, foi conduzida por Maluh Andrade, que destacou, em sua fala, a importância das trocas construídas ao longo da programação e da permanência de espaços dedicados ao cinema negro. A noite contou ainda com a última sessão de cinema da mostra, realizada em parceria com a distribuidora Borboleta Filmes. Após as exibições, o público participou de uma conversa com a cineasta Camila de Moraes, diretora-executiva da distribuidora.

A condução da mostra articula curadoria, realização e pensamento, evidenciando o papel das mulheres negras na construção do audiovisual brasileiro (Foto: Lucas Rabelo)

Marcada por um momento simbólico, a edição celebrou que há dez anos nascia, em Sergipe, a EGBÉ, um espaço-quilombo que, desde então, tem como missão possibilitar a circulação de filmes realizados por cineastas negras e negros do Brasil e da diáspora no estado. Durante a noite, enquanto aconteciam a cerimônia de encerramento, as exibições e o bate-papo com Camila de Moraes, a Feira do Mangaio Negro reunia empreendedores locais e fortalecia o diálogo entre cultura e economia.

A diretora-geral e artística da mostra, Luciana Oliveira, celebrou o resultado da edição. “Estou muito feliz, muito satisfeita. Acho que fizemos um belíssimo trabalho este ano. Foi uma edição muito emocionante. Trabalhamos com um tema muito importante para o cinema brasileiro, que é homenagear justamente as mulheres negras que vêm contribuindo para o audiovisual. Recebemos convidadas incríveis, nomes fundamentais nesse processo. Tivemos sessões muito bonitas, de longas e curtas-metragens. Foram dias muito ricos de trocas, de partilhas e de conhecimento”, afirmou.

Luciana Oliveira celebrou o resultado da 9ª EGBÉ, destacando a intensidade das trocas, das sessões e dos encontros ao longo da mostra (Foto: Lucas Rabelo)

A escritora Taylane Cruz, que participa da EGBÉ há alguns anos, destacou o crescimento e a consolidação do projeto. Para ela, a EGBÉ reafirma seu lugar como um espaço onde o cinema negro ocupa o centro das narrativas. “Eu acho que a EGBÉ, este ano, demonstra toda a potência das edições anteriores e afirma o seu lugar como um espaço em que o cinema negro está no centro. É um grande brilho, uma grande celebração. É muito bonito ver essa mostra ganhar esse tamanho e essa força, agregando cada vez mais filmes, tradições e diferentes formas de cinema”.

Presente em vários dias do evento e integrante da programação, a professora, pesquisadora e crítica de cinema Kênia Freitas ressaltou a importância da continuidade da mostra dentro do circuito de festivais brasileiros, especialmente por acontecer fora dos grandes centros do país. “Quando a gente pensa na história dos festivais e mostras no Brasil, muitos estão concentrados no Rio de Janeiro e em São Paulo. Então, pensar em uma mostra feita no Nordeste, em Sergipe, que é um estado pequeno e que consegue acontecer de maneira tão rica, é muito importante. Desde o começo, a EGBÉ traz pessoas incríveis e constrói um espaço fundamental para o cinema negro no país”, afirmou.

Sessão com a Borboleta Filmes encerra exibições da 9ª EGBÉ

A última sessão da mostra, com o Circuito Itinerante Borboleta Filmes, apresentou três curtas-metragens que exemplificam a diversidade estética do cinema negro contemporâneo: o documentário sergipano A Culpa é da Mãe (dir. Luciana Oliveira e Manoela Veloso Passos), a ficção gaúcha A um Gole da Eternidade (dir. Paulo Ricardo de Moraes e Camila de Moraes) e o musical Quarta-feira (dir. João Pedro Prado e Bárbara Santos).

A sessão propõe um fechamento atravessado por diferentes formas e abordagens dos cinemas negros contemporâneos, reunindo narrativas que passam por questões da maternidade, da relação com o luto e da crítica social sobre a repreessão na periferia.

A existência de espaços como a mostra é fundamental para que realizadores negros possam ocupar o circuito audiovisual de forma digna (Foto: Lucas Rabelo)

Para a diretora-geral da EGBÉ, Luciana, a noite foi duplamente especial. Além de ser uma mulher negra, cineasta e responsável por uma edição que aborda a contribuição de mulheres negras, ela pôde ver seu filme em tela grande pela primeira vez. Antes da exibição, a diretora comentou a expectativa de assistir à obra com o público. “Vai ser muito especial, porque no lançamento eu não pude estar, que eu tava em outra missão, né, nesse momento. E é a primeira vez que vou assistir em tela grande, com o público. Então, para mim é especial nesse sentido, então é como se fosse um lançamento para mim. Então, acho que vai ser bacana, né, rever esses discursos todos que a gente tem nesse filme”, disse.

Desafios e estratégias da distribuição independente

A etapa de distribuição é fundamental para que curtas e longas-metragens alcancem canais como festivais, plataformas, mostras e cineclubes. Para aprofundar esse debate na 9ª EGBÉ, a convidada foi Camila de Moraes, diretora-executiva da Borboleta Filmes. Cineasta, jornalista e produtora cultural, possui um currículo robusto, assinando a direção de obras como o premiado longa O Caso do Homem Errado e os curtas A Escrita do seu Corpo, Mãe Solo e Oliveira Silveira — O Poeta da Consciência Negra.

Camila de Moraes ressalta que a circulação do cinema independente depende da construção de parcerias e estratégias em diferentes espaços (Foto: Lucas Rabelo)

Durante sua fala no bate-papo “Distribuição no Circuito Independente Brasileiro”, Camila abordou temas técnicos como negociação e circulação, mas também trouxe um relato carregado de emoção sobre sua trajetória pessoal. Ao comentar o processo de seu pai, Paulo Ricardo de Moraes, que codirigiu com ela a ficção A um Gole da Eternidade, exibida antes de sua fala, a cineasta destacou a demora de anos para ver um filme efetivamente circulando, devido às barreiras estruturais nos setores de investimento e distribuição.

Para Camila, o cenário atual exige criar outras possibilidades de existência para o cinema negro e independente. Ela defende que a solução passa obrigatoriamente pelo trabalho coletivo e pela criação de redes de apoio. “Precisamos criar estratégias e parcerias para que eles cheguem ao grupo, porque a gente entende que a gente não faz nada sozinho, a gente vive nesse mundo no coletivo. Então a gente tem que cada vez mais criar essas parcerias e estratégias para fazer chegar”.

Encerramento celebra equipe, público e trajetória da mostra

O evento foi encerrado com a exibição de um vídeo comemorativo dos melhores momentos desta edição, seguido pelo agradecimento ao público e pela apresentação de toda a equipe técnica. A edição foi marcada pela potente presença feminina em todas as frentes do evento. Durante o encerramento, Maluh Andrade destacou a importância dessas profissionais, descrevendo-as poeticamente como “mulheres-peixes com câmeras-espelho nas mãos”.

O encerramento ultrapassou as salas de exibição e ocupou a Praça General Valadão. O público celebrou o sucesso da mostra com uma roda de samba comandada por Mayra Félix, que contou com as participações especiais de Jaciara Chagas, Lívia Aquino e Lari Lima. Enquanto o samba acontecia, os presentes puderam prestigiar e fortalecer o empreendedorismo negro na Feira do Mangaio Negro.

João Brazil celebrou o trabalho de uma “equipe gigante e dedicada” que garantiu um evento digno e profissional ao público (Foto: Lucas Rabelo)

Para João Brazil, produtor executivo da EGBÉ, a trajetória da mostra é marcada pela resposta do público e pela dimensão coletiva construída ao longo dos anos. “Quando a criamos em 2016, não tínhamos dimensão do quanto ela se tornaria importante. Mas, ao ver a sala cheia naquele primeiro ano, entendemos o impacto que uma mostra de cinema negro poderia ter na vida de muitas pessoas, e isso nos deu força para continuar. A cada edição, o público nos devolve essa energia, essa troca é o que sustenta o evento. Para o público sergipano, isso é especialmente significativo, e hoje sabemos que a mostra também ocupa um lugar de referência no cenário nacional”, afirmou.

Com o encerramento da programação, a 9ª edição da EGBÉ reafirma a mostra como um projeto contínuo, pensado desde sua criação como prática político-pedagógica voltada à formação de público, à mediação cultural e ao encontro entre realizadores, pesquisadores e comunidades.