Rapsódia em Azul: coreografia da percepção

Rapsódia em Azul
Direção: Marina Barancelli
Ano: 2025
País: Brasil (PR)
Duração: 15 min
Classificação indicativa: 10 anos

Crítica de Luiz Gustavo1

Sob pontos de luz amarelada dispersos na escuridão do palco, dançarinos emergem e perpassam o quadro ao som de uma música clássica. Do desvanecer desses corpos na tela, surge uma jovem bailarina negra que se inscreve na posição central do plano. É por meio de seu aparecimento que a câmera passa a operar em deslocamento, acompanhando suas piruetas em cena, agora sob uma iluminação azulada. Trata-se de um protagonismo que logo se revela sonhado, ao ser descontinuado pela montagem com o despertar da personagem na imagem seguinte.

A partir desses primeiros passos imagéticos do filme Rapsódia em Azul (2025), dirigido por Marina Barancelli, observo que o modo de presença da bailarina convoca a câmera e a montagem para coreografarem um reflexo visual e racial de sua experiência nessa companhia de dança. Após os movimentos iniciais, seu estar em cena reinscreve as imagens no mesmo cenário do sonho inicial e a perpétua, uma vez que ainda se trata de um mundo situado no palco. Sua casa e rua coabitam coxias e salas de ensaio, atravessadas pelo seu corpo e pela câmera que o acompanha.

Mas, diferentemente da interrupção abrupta que a fez acordar anteriormente, a descontinuidade de sua aparição se dá agora através da marginalização progressiva de sua figura na encenação. Em casa e nos ensaios, a protagonista é central. Já nos momentos de apresentação de balé, a câmera deixa de reconhecê-la como foco. Sua presença fica à mercê do enquadramento, por vezes, invisibilizada no extracampo ou relegada ao fundo do quadro, distanciada da ação que primeiramente captura a atenção da imagem. Uma dança vista em fluxo visual.

Tal regime de invisibilidade opera como um modo de encenação que explicita as hierarquias de visibilidade próprias ao espetáculo clássico. Esse será parcialmente desestabilizado quando a personagem negra reassume o campo visual nuclear, ao substituir a bailarina branca que sofreu um acidente. Suas gestualidades voltam a reencenar o próprio protagonismo interrompido, mas, ao invés de compor uma fluidez contínua, elas se manifestam através de uma concatenação de planos rápidos que dialetizam sua dança de movimentos viscerais em relação à audiência que a assiste nos palcos.

O espetáculo se torna o próprio corpo objetificado, no qual o filme evidencia como essa bailarina negra, apesar de reassumir o campo de percepção, permanece atravessada por modos de ver que a fragmentam na montagem. Mas é por meio de um insert, um terceiro plano surgido do encontro entre esse ver da plateia e esse ser visto da bailarina, que se prolifera uma violência explícita por parte de alguém que a assiste em cena. Objetos como uma banana e um bicho de pelúcia em forma de macaco são atirados em direção ao palco, evidenciando a hostilidade racial que atravessa a experiência performativa da protagonista. Isso a imobiliza em cena e a faz se enxergar através da criança que um dia foi.

Passeia por instantes posados do seu passado diante de uma professora rígida e, ao retornar para o presente, se distancia daquele palco, realocando as colegas de profissão e a professora para a profundidade de campo que ela ocupou anteriormente, desfocando-as, antes de correr em direção às luzes que, previamente dispersas, agora ocupam todo o quadro de um gesto por vir. Gestualidade essa que ganha novos sentidos por meio do encontro com imagens de arquivo de Josephine Baker nos créditos finais, a quem a obra é dedicada.

Tais registros documentais de suas apresentações teatrais operam como registros documentais que, além de historicizar a figura evocada, também traçam um diálogo com a bailarina da ficção através de uma expressividade corporal entre o passado e o presente. O contato com esses documentos estabelece com as imagens anteriores uma espécie de continuidade, por conta de um parentesco gestual entre as personagens, mas também traça rupturas à medida que a protagonista abdica, na cena final, dessa coreografia “selvagem” atribuída ao seu corpo. Desse modo, Rapsódia em Azul (2025) faz operar uma vivência racial por meio de um regime visual que dança entre a visibilidade e a invisibilidade dos gestos de bailarinas negras.      

  1. Participante da Oficina de Crítica Cinematográfica da 9ª EGBÉ, dedicada à análise dos filmes da Mostra Oficial, sob orientação da professora e pesquisadora Kênia Freitas.  ↩︎