Entre os dias 24 e 26 de março, no Espaço Vem de Sergipe, foi realizada a Oficina de Crítica Cinematográfica, ministrada pela professora Dra. Kênia Freitas, parceira que já contribuiu com a EGBÉ em outras edições. Cerca de 15 pessoas selecionadas participaram dos três dias de atividades. A programação combinou momentos expositivos com diálogo entre os participantes, além da leitura de textos e da exibição de filmes.
Durante a oficina, os participantes discutiram o conceito de crítica de cinema, refletindo sobre seu surgimento histórico e sobre como marcadores raciais, sociais e regionais atravessam esse fazer crítico. Também foram abordadas questões de enunciação na crítica e no cinema, pensando quem fala, de que lugar fala e como essas vozes se posicionam na produção de análises sobre filmes.
A proposta foi pensar a crítica de cinema a partir de perspectivas múltiplas e implicadas, tomando como ponto de partida os cinemas negros. Mais do que um enfoque temático, a oficina convidou os participantes a observar como conteúdo e forma se articulam nos filmes.
Como exercício final, os participantes produziram críticas sobre obras exibidas na Mostra EGBÉ 2026, que serão posteriormente publicadas no site da mostra, ampliando a circulação das reflexões desenvolvidas durante a atividade.
Segundo o coordenador de formação da EGBÉ, Victor de Rosa, a iniciativa também faz parte do esforço de ampliar as ações formativas da mostra. “A gente vem expandindo cada vez mais a dimensão da formação, e a oficina faz parte do nosso intuito de oferecer mais cursos, oficinas e ambientes que proporcionem aprendizado relacionado ao cinema negro”, afirma.

Entre os participantes estava o estudante de licenciatura em História André Felipe Almeida Florêncio, que se inscreveu na oficina interessado em ampliar as possibilidades de diálogo entre cinema e historiografia. “O curso de História infelizmente se prende muito a textos acadêmicos e artigos. Nos meus estudos pessoais, comecei a buscar outras formas de pensar a historiografia”, explicou.
Para ele, a oficina surgiu como uma oportunidade de explorar novas linguagens e refletir sobre o cinema como ferramenta de análise. André contou que chegou ao curso com pouco conhecimento sobre análise cinematográfica, mas que a experiência tem ampliado sua forma de olhar para os filmes. “Eu sou uma pessoa que caiu de paraquedas aqui. Tinha uma percepção muito rasa sobre cinema, e esses dias têm sido de muitas dúvidas sendo sanadas”, afirmou. Segundo o estudante, compreender elementos como enquadramento, posicionamento de câmera e intenção autoral tem sido fundamental para pensar a crítica cinematográfica.
Com ampla experiência na área, a professora Kênia Freitas já ministrou a oficina em diversos festivais pelo país. Segundo ela, cada evento apresenta um conjunto específico de filmes, temas e públicos. No caso da atividade realizada na Mostra EGBÉ, a proposta foi aproximar o debate da crítica cinematográfica das obras exibidas no próprio evento. “A produção de textos críticos acaba trazendo um olhar de recepção para os filmes que a EGBÉ está exibindo”, explica. Para ela, esse exercício contribui para ampliar o diálogo em torno das obras. “A curadoria faz um trabalho fundamental, mas esses textos críticos também funcionam como mediadores entre a curadoria, o público e os próprios realizadores”, afirma.
Kênia também destacou a importância da mostra no cenário do cinema negro. “É uma mostra que acompanho há muito tempo, desde antes de morar aqui. Acho que ela tem uma importância não só local e regional, mas também nacional dentro do circuito de mostras de cinema negro”, disse. Segundo a professora, a longevidade da EGBÉ é um aspecto significativo, especialmente diante dos desafios de manter iniciativas culturais no país. “O Brasil é um país continental e pensar cinema negro a partir do Rio de Janeiro é uma coisa, de São Paulo é outra, e a partir de Sergipe também traz outras perspectivas”, afirmou.






