
A Sombra de Um Futuro
Direção: Gabriel Borges
Ano: 2025
País: Brasil (PR)
Duração: 19 min
Classificação indicativa: 10 anos
Crítica de Gabriel Santana1
Esse curta-metragem afrofuturista mistura uma narrativa onírica com uma fotografia deslumbrante para nos transmitir uma mensagem social perspicaz. O filme consegue, durante toda sua duração, nos manter imersos naquele mistério e nos trazer ao longo da trama uma discussão racial inteligente através de diálogos sutis.
Acompanhamos Rosa, uma moça que se vê angustiada com um estranho sonho que teve. Nele ela pode ver flashes de imagens distorcidas da cidade enquanto um homem fala algo indecifrável. Atordoada pela dúvida, Rosa tenta resolver o mistério com a ajuda de seu amigo Pedro, que não parece dar tanta importância aos receios da amiga.
Esse é um filme de fantasia e sci-fi bastante imersivo. A todo momento a trama nos inquieta e nos coloca em uma posição de dúvida, assim como a protagonista. Aquelas imagens distorcidas seriam uma manifestação de algo sobrenatural ou apenas fruto dos devaneios da mente de Rosa? Essa questão paira o tempo todo pelo ar, tornando a atmosfera do filme tensa e sufocante, mas, ao mesmo tempo muito engajante. A busca por respostas concretas que a protagonista inicia, como analisar um trecho de vídeo misterioso que ela gravou, nos coloca num lugar de paridade, pois é algo muito lógico que também faríamos em seu lugar.
De longe o que mais marca no filme é sua fotografia excepcional. A utilização das cores azul e vermelha trazem um contraste forte com a dinâmica noturna da maior parte do curta. A condução visual da obra é ainda mais marcante com a utilização precisa de efeitos visuais que ajudam a construir uma perspectiva ainda mais onírica para o filme, que escapa do subconsciente da protagonista e se impregna por toda a imagem, com uma utilização precisa de luzes difusas que parecem preencher o quadro. Uma realização impecável, tendo em vista as dificuldades de filmagem noturna e a peculiaridade de construir uma atmosfera urbana tensa e, ao mesmo tempo futurista, sem perder os pés na realidade.
A narrativa se fragmenta inúmeras vezes, sendo transposta por inserções de imagens que provém das visões embaraçadas da mente de Rosa, criando assim um onirismo constante que não nos deixa confiar nem mesmo no que estamos conferindo em tela. As técnicas utilizadas ainda garantem uma construção climática imersiva, com trilha sonora se utilizando bastante de sintetizadores, em clara referência às ficções científicas clássicas, e uma construção visual que também nos remete a narrativas futuristas, mas trazendo uma perspectiva mais crua e atual.
A trama ainda traz, com toques delicados, uma mensagem inquietante. O mundo do filme, assim como a realidade, parece um lugar perigoso e inseguro, carregando uma discussão importante sobre a posição das pessoas negras nessa sociedade. Essa condição de estar o tempo todo em alerta e julgamento constante envereda na narrativa transportada para o curta através do sentimento de não pertencimento da protagonista, o que acaba sendo o motor da trama e a motivação para a busca incessante por respostas aos seus questionamentos. Todos esses anseios e dúvidas são finalmente respondidos na cena final, que fecha muito bem a história e nos convida a pensar para além daquela ficção. Seria o nosso mundo uma casa tão segura e acolhedora para todos?
Essa é uma obra que nos seduz pela sua técnica, inquieta pela sua narrativa misteriosa e no fim transmite uma visão de sociedade que nos faz perceber que aquela fantasia pode não ser, para muitos, tão diferente do mundo em que vivemos.
- Participante da Oficina de Crítica Cinematográfica da 9ª EGBÉ, dedicada à análise dos filmes da Mostra Oficial, sob orientação da professora e pesquisadora Kênia Freitas. ↩︎





