Marcado por sua diversidade de personagens, corpos e territórios, o cinema negro ganha novos sentidos ao trazer para as telas novas formas de se fazer cinema. Nesta sexta-feira (17), a EGBÉ reuniu duas sessões da Mostra Oficial que abordaram temas sobre ancestralidade e tecnologias, além de estreia de filme sergipano. Para aumentar ainda mais a troca de experiências, convidados e diretora comentaram sobre a produção cinematográfica de Sergipe e do Brasil a partir das suas perspectivas.
A sessão Novas Encruzilhadas começou cedo, pronta para receber públicos tão distintos em um só espaço. Os alunos do Ensino Médio do Centro de Excelência Atheneu Sergipense e os assistidos pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) tomaram conta do auditório do Sesc Comércio. Um encontro com diferentes visões, mas que desejavam olhar para outros mundos.

Ao focar em ancestralidade, corpo e ressignificações, a sessão Novas encruzilhadas foi composta pelos filmes Entre nós, vive o rio (dir. Day Rodrigues), que articula espiritualidade e crise ecológica; Rapsódia em Azul (dir. Marina Barancelli), que tensiona racismo e exotização no campo da dança; E seu corpo é belo (dir. Yuri Costa), que revisita o universo das festas black dos anos 1970 em uma narrativa que cruza musical, romance e terror, ao lado de Ainda escuto o céu embaixo d’água (dir. Alice Lovelace e coletivo), que atravessa desejo, sonho e experiência travesti.
A professora de artes Rafaella Rodrigues, que acompanhava os alunos, ministra a disciplina de Cinema Negro no colégio. A iniciativa, segundo ela, se tornou necessária para expandir o conhecimento dos estudantes sobre o mundo em que vivem e as suas diferentes realidades. “Eu acho muito importante a gente falar sobre a educação antirracista na escola, desconstruir paradigmas e preconceitos, e que eles possam também acessar o cinema, possam produzir, ver e assistir produções de cinema negro que vão ajudar nesse debate”, explicou.
Rafaella, que também é mestra em cinema, enfatizou os diversos benefícios que o cinema pode proporcionar, seja para os alunos ou professores. “O cinema pode transformar vidas. Cinema transforma a gente como professor, a gente pode falar muita coisa na sala de aula, a gente pode passar 40, 50 minutos falando. Mas quando a gente assiste a um filme, quando a gente vê uma cena, ela tem um impacto muito maior”.

Os filmes chegaram a cada aluno de uma maneira diferente. Para Adelmo, do 3º ano, o filme Ainda escuto o céu embaixo d’água lhe deixou mais vidrado, por mostrar a realidade de travestis que são postas à margem da sociedade, ficando suscetíveis a diversos tipos de violência. “Onde eu moro, a gente vê muito esses casos, em que essas pessoas acabam tendo que se construir por não ter uma oportunidade na vida”, compartilhou.
Já para Nitsu Yuri, também do 3º ano, o filme que mais te atravessou foi Rapsódia em Azul, por representar diferentes formas de racismo em um ambiente majoritariamente branco. “Os filmes que eu vi hoje, eu acho que todos eles me passaram uma mensagem, me passaram algo para poder levar para minha vida, não só nos meus estudos, mas para mim, o que muda a minha personalidade, o meu jeito de ser e de agir com os outros, independente da cor de pele e da sexualidade”, detalhou.
Além dos estudantes, cerca de 10 assistidos pelo Centro POP foram prestigiar a sessão. A iniciativa representa um diálogo que a EGBÉ constrói com diferentes partes da sociedade, em que expande as suas raízes para construir outras possibilidades de leitura sobre o mundo. O educador social do Centro POP, Luciano dos Santos, contou que frequentemente tenta levar sessões de filmes para as pessoas que chegam até o espaço, por ser um público que possui difícil acesso às artes.
“Como são pessoas em situação de rua, eles não têm esse acesso ao cinema, então está aí a importância de também introduzir a arte, como o cinema, a música e outros meios culturais para que eles tenham mais acesso e tenham outra visão do que ocorre em torno deles”, explicou.
Após a exibição dos filmes, Quésia e Hiago Feitosa subiram no palco e compartilharam as suas experiências com o audiovisual. Os convidados falaram um pouco sobre como o cinema é um dispositivo que busca construir representatividades.

“Primeiramente, o futuro é travesti. Acredito que a travestilidade nos movimenta. Então trazer esses filmes tão importantes gera o movimento da sensação, de poder se enxergar no presente, no passado e no futuro. Acho que a palavra que resume esse momento para mim hoje, além de sensação, é movimento. E a água esteve presente em todos os filmes, a água não se prende a nada, a água é esse fenômeno que leva a gente para lugares inimagináveis”, disse Quésia.
Unir grupos tão diferentes, com realidades distintas, faz parte de um projeto de formação que a EGBÉ vem construindo ao longo dos seus 10 anos de existência. “Um dos nossos papéis é levar o cinema sergipano para os espaços, para que a gente entenda o quanto o cinema sergipano tem o seu valor, o quanto a gente tem cineastas negros e negras que produzem cinema em Sergipe e que pouca gente conhece. Então a gente dá essa contribuição e levamos os realizadores para esses espaços nas escolas, instituições e associações”, explicou João Brazil, produtor executivo da EGBÉ.
Estreia sergipana marca sessão Tecnologias Pretas
A sessão Tecnologias Pretas trouxe filmes que mergulharam em mundos modificados pelas tecnologias. Os curtas-metragens mostraram que nem sempre a vida da era digital é uma evolução, mas que podemos achar nelas outras formas de acessar a ancestralidade. A sessão que propõe conhecimento negro como ferramenta de invenção de futuro aconteceu no Cine Walmir Almeida, no Centro Cultural.
A mostra contou com os filmes Oriranti (dir. Petyta Reis), que conta a história de uma neurocientista confrontando traumas raciais ao acessar suas próprias memórias; Sertão 2138 (dir. Deuilton B Junior), que projeta um futuro distópico atravessado por escolhas e deslocamentos; A Sombra de Um Futuro (dir. Gabriel Borges), sonho e obsessão conduzem uma investigação sobre imagem e ausência; e Não é exatamente amor (dir. Janaína Santos Vasconcelos), que experimenta o espaço urbano a partir de imagens e deslocamentos sensoriais.
Não é exatamente amor marcou a sua estreia durante a sessão. Foi um momento de o público apreciar a obra de Janaína Vasconcelos, que passou três anos mergulhada em pesquisa, desbravamento e observações. O filme é composto por prints feitos em uma plataforma de mapa virtual, em que a diretora ficou imersa no centro de Aracaju, analisando a composição da cidade, as suas transformações e como ela interfere na vida das pessoas.

O filme de Janaína é um exemplo claro de como a tecnologia pode atravessar o cinema e desbravar novas narrativas. “Eu uso imagem do Google Street View roubadas e ressignificadas para falar sobre a cidade que eu moro, a cidade que eu fotografei durante 10 anos explorando dispositivos, fotografia e processo de criação. A tecnologia está ligada em como esse aparato técnico que é duro, mas eu vou amaciando ele a partir do lugar das minhas vivências”, resumiu a diretora.
A cineasta ainda observou que a tecnologia é capaz de acessar a ancestralidade por fazer pensar os corpos que fazem e produzem conhecimento. “Quando eu falo sobre a cidade, quando eu falo sobre a significação desse espaço urbano, eu também estou falando de pessoas pretas. Fico um pouco triste quando os outros pensam que, obrigatoriamente, falar sobre ancestralidade vem de um único lugar, sobre um único caminho. Mas quantos ancestrais pretos também desenvolveram tecnologias, também aperfeiçoaram, também falaram sobre a cidade?” refletiu.
Após a exibição, ela compartilhou sobre o seu processo de produção, o que lhe transformou na sua trajetória de imersão e quem esteve junto com ela nesse caminho. As suas falas geraram muitas reflexões no público, a exemplo de Vanderleia Cardoso, que, além de ter se encantado com os filmes, ficou deslumbrada com o filme de Janaína.
“O que me marcou muito foi a densidade poética da escrita de Janaína e a narração de Débora Arruda. Isso mostra o quanto a poética da diretora foi preservada, no sentido de que não eram outras vozes, outras interpretações ali que poderiam entrar em conflito, mas sim a poética da própria cineasta”, compartilhou.
Ao reunir diferentes públicos e propostas estéticas, a programação desta sexta reforça o papel da EGBÉ como espaço de circulação e partilha do cinema negro. O último dia da Mostra acontece neste sábado, com Feira do Mangaio Negro, cerimônia de encerramento, Circuito Itinerante Borboletas Filmes, bate-papo com a diretora Camila de Moraes e roda de samba comandada por Mayra Felix, com participação de Lari Lima, Jaciara Chagas e Lívia Aquino.





