
Em busca da riqueza (quase) esquecida
Direção: Naira Soares
Ano: 2025
País: Brasil (BA)
Duração: 20 min
Classificação indicativa: Livre
Crítica de Ruth Thayanne Fernandes Gomes1
Dirigido por Naira Nanbiwí Soares, Em busca da riqueza (quase) esquecida inicia nos presenteando com a imensidão das águas que delineiam o porto de Camuma, na Bahia, cidade na qual a narrativa situa-se. Adentramos a imagem do mar como quem, gentilmente, aceita um convite. Deliciar-se nas pulsações que as imagens podem despertar.
E é nas miudezas da elaboração que o deleite habita: na segunda imagem somos apresentados a Rosalina Alves Docílio, avó de Naira, que encontra nas lentes da neta o lugar para registrar a história da sua família e o amor pelo quilombo em que nasceu, “Só o verde da nossa terra enriquece o nosso coração”, ela diz. E, cadenciando o arco narrativo, o filme nos condiciona a um plano sequência entre fala, imagem, os sons dos pássaros que circundam o quilombo do Barroso — comunidade a qual a família de Soares pertence — e a fala novamente, a câmera nos põe cara a cara com o encantamento de Antônio Correia (in memoriam), ancestral de Naira, celebrando a ideia dela documentar a existência coletiva, a qual eles materializam.
Unindo o aprofundar das filmagens e a postura do discurso, o filme se dilui em seu fazer: o espectador torna-se confidente, entusiasta e guardião do legado e preciosidade que reside no seio daquela família, um acordo silencioso de ternura das imagens e quem a recebe. É na firmeza do solo baiano que Nanbiwí costura o tempo, entrelaçando passado, presente e futuro na tessitura de uma ancestralidade que vibra e move tudo que, aqui, gostaria de chamar de espelhamento da memória.
E assim como vovó, Naira também tem ‘sede de memórias’ de modo que buscar essas lembranças e saberes dos seus mais velhos compõe um movimento circular, contínuo e coeso nas imagens, pois; ao passo que traça os caminhos fílmicos das possibilidades imagéticas, implicando seu olhar ali, ela também cria um espaço que horizontaliza o processo.
E sustenta isso na sutileza da montagem, numa das cenas finais temos um momento de Naira com a avó, que inicia com ela dando um abraço em dona Rosalina e agradecendo pelos ensinamentos, por tudo — enquanto a avó também agradece a chance de ter sua história contada e deixar algo. “Eu sou quem agradeço, porque se não fosse você, não tinha essa oportunidade”, ela diz. Ao que a neta responde: “E se não fosse a senhora, como é que ia ter filme?” É muito interessante pensar como as figuras vão se conversando e entrelaçando nesse curso das imagens, Naira não é somente o ser desvinculado dos afetos e que está operando a câmera – ela é parte dele e, por isso, mobiliza tanta agência.
Olhar pra Em busca da riqueza (quase) perdida me faz recordar do cinema da cineasta cubana Sara Gómez – em Guanabacoa, Crônicas de Mi Família (1966) onde também é possível notar que a candura é posicionalidade para encarar o filme. Na produção de Sara, nós conhecemos Cuba sob a égide dos registros caseiros de sua família, um mergulhar no particular que reflete sobre o coletivo. Majestosamente íntimo. Observar a fluidez e delicadeza com as quais Gómez olha para a comunidade negra da ilha caribenha, ilustrada na figura da sua família, nos permite pensar sobre o processo de autoinscrição no fazer cinematográfico e o quanto é possível colocar-se no processo.
Aspecto semelhante ao que encontramos na obra de Naira, sua câmera passeia pelas noções de territorialidade, pertencimento, cultivo do mundo, espiritualidade, sujeito coletivo e afetividade, tendo como ponto de partida um desejo: tracejar os caminhos que desabrocham no existir dos Seus e imprimir a poesia que mora e se eterniza na terra.
Se em Guanabacoa Sara Gómez nos apresenta a ilha cubana que dança no cintilar das joias e saias das suas tias, nos instrumentos que os homens da sua família tocam e que se materializam nos lugares-comuns do existir urbano na Cuba pós-revolução, Em Busca da riqueza (quase) perdida, Soares nos agracia com o mergulhar no interior do litoral sul baiano, a Costa do Dendê e território quilombola.
Com planos tão grandes e intensos quanto o debruçar-se naquele passado, a cada entrevista coletada, as imagens nos conduzem para o que entendo como ideia fundante do filme: uma cartografia social movida pelo amor e resguardo da memória e vida do povo negro em diáspora, um fazer que nasce do acervo íntimo familiar, mas torna-se um manifesto para todo sujeito coletivo que reconhece o registro enquanto território de salvaguarda e o vislumbre duma existência que desabrocha na inventividade e disputa pela reimaginação. A verdadeira revolução são suas retinas.
E na cena final, envoltos pela calmaria do mangue e silêncio da mata, o filme corporifica seu título, a riqueza é a celebração da longevidade e beleza daquela família negra que cria o tempo e guarda o mundo enquanto fabula muitos outros.
- Participante da Oficina de Crítica Cinematográfica da 9ª EGBÉ, dedicada à análise dos filmes da Mostra Oficial, sob orientação da professora e pesquisadora Kênia Freitas. ↩︎





