A coletividade é refúgio dos sonhos

Ainda escuto o céu embaixo d’água
Direção: Alice Lovelace, Céuva, Kalina Flor, Lua de Kendra, Marina Bonifácio, Morgana Neves, Nara Dos Santos, Pérolla Negra e Samantha de Araújo
Ano: 2024
País: Brasil (AL)
Duração: 13 min
Classificação indicativa: 10 anos

Crítica de Max Leandro1

Transitória é nossa existência. Transcendental a alma. Somos alma antes de sermos corpo. Transmutantes criaturas somos, humanos. Transgressoras são as corpas descolonizadas. Mergulhadas, imersas no rio que transcorre por entre florestas ancestrais e deságua no ser e ainda escutamos o céu embaixo d’água.

A mensagem que nos chega é um convite a testemunhar a amplitude do cinema enquanto linguagem e possibilidades de criação e representação. A colonização trouxe a língua portuguesa, aqui ela encontrou as línguas indígenas e as línguas pretas trazidas com as pessoas sequestradas no continente africano e traficadas para o Brasil, transformando nossa língua. E essa mistura reflete a diversidade de corpos e corpas, das formas de ser. 

O filme Ainda escuto o céu embaixo d’água começa com uma cena um tanto mística que mais lembra um batismo e em seguida nos leva a mergulhar na humanidade e na intimidade compartilhada pelas amigas: Alice Lovelace, Kalina Flor, Lua de Kendra, Morgana Neves e Samantha de Araújo que se encontram reunidas em um bar. Samantha, introspectiva, traz a tona o dilema imposto pela cis-heteronormatividade que as oprime e as impede de sonhar. Cinco mulheres pretas e periféricas, travestis, que encontram na espiritualidade, na convivência, na partilha e no acolhimento mútuo forças e razões para permanecerem vivas e continuarem lutando por seus sonhos. 

A obra foi escrita e dirigida coletivamente por estas mulheres além de Céuva, Marina Bonifácio, Nara dos Santos e Pérola Negra. Embora a câmera na mão possa suscitar a ideia de amadorismo visto que o filme é um exercício, resultado da oficina de formação e criação: Ateliê Xicas do Cinema, exclusiva para pessoas trans e travestis, está longe disso, faz parte da estética, dialogando diretamente com a ideia de movimento do rio, das mudanças e transformações que as personagens falam durante a conversa. 

Samantha conversando com suas amigas desabafa: “As coisas não fazem sentido, tá tudo desnorteado. Não consigo sonhar”. Inicia-se, então, um debate sobre a travestilidade e que se encerra com a fala de Alice que diz que tudo aquilo é uma grande jornada, que sua transição, sua liberdade para ser quem ela é e estar ali é a realização de um sonho.

Nesse momento, recebemos um convite para refletir sobre nós, sobre nossos sonhos e realizações, mas principalmente se é a realização de um sonho individual ou coletivo fazer esse filme, ou se o sonho realizado é possibilitar que outras corpas que sofrem com a colonialidade e a transfobia possam se ver com dignidade e possam sonhar também. E, por fim, ela conclui sua fala questionando quais rituais de travesti, suas amigas aprenderam, o que buscam para si e o que buscam como refúgio. 

Então acontece um corte seco e a imagem abre para um enquadramento em plano conjunto com Samantha no centro olhando diretamente para a câmera com expressão tensa como se pudesse ver o espectador, uma parede com pintura velha e descascando atrás dela com a frase escrita em tinta preta: Seja você mesma. Uma a uma suas amigas entram no quadro: Morgana senta-se à esquerda segurando a mão de Samantha e apoiando sua cabeça no ombro esquerdo dela, Alice segurando mão direita e apoiando a cabeça no ombro direito, Kalina entra pelo lado direto e segura as mãos de suas amigas apoiando sua cabeça no ombro direito de Alice e por última, pelo lado esquerdo, Lua que também segura as mão de suas amigas e apoia a cabeça no ombro esquerdo de Morgana.

Todas encarando a câmera como se pudessem ver quem as assiste e a feição de Samantha agora transmite conforto. Talvez essa seja a imagem mais potente do filme. Como se nos dissesse que ser quem se é realizar um sonho e que o refúgio seguro e confortável é estar com os nossos evocando a ideia de “Ubunto” da filosofia Bantu e que significa: eu sou porque nós somos.

Entre poesia e misticismo, sutilezas e força, o filme é um manifesto, quase uma ode à travestilidade. Mas é um brado, aos olhos e ouvidos cisgêneros opressores que não admitem desvios da heterossexualidade/normatividade compulsória. E esse brado diz: nós existimos apesar de vocês.

  1. Participante da Oficina de Crítica Cinematográfica da 9ª EGBÉ, dedicada à análise dos filmes da Mostra Oficial, sob orientação da professora e pesquisadora Kênia Freitas. ↩︎