Mercado EGBÉ abre programação debatendo políticas públicas e expansão do cinema sergipano

Comemorando 10 anos de existência, a 9ª EGBÉ fez a sua abertura com o inédito Mercado EGBÉ, primeira ação de mercado audiovisual em Sergipe. Reafirmando o seu lugar de construção de memória e conhecimento, a edição de 2026 abre caminhos para produtores e realizadores negros do audiovisual, debatendo estratégias de pertencimento.

Sendo o primeiro mercado audiovisual em Sergipe, o Mercado EGBÉ já possui singularidades em comparação a outros mercados, principalmente por ter um recorte racial em toda a sua estrutura.

“O Mercado EGBÉ tem uma singularidade, que é estar pensando nas empresas vocacionadas e esses projetos que vão estar contando histórias de pessoas pretas por pessoas pretas. O principal diferencial de outros mercados é a gente poder estar negociando nossos produtos, falando de nós mesmos, a gente está tomando as rédeas dentro desse processo da etapa de produção”, explicou Lu Silva, editora audiovisual e mediadora do painel.

O Mercado EGBÉ chegou com o debate sobre políticas públicas para a expansão do cinema sergipano, ampliando o olhar para os desafios presentes dentro do setor e quais os possíveis caminhos a serem trilhados. Para compor a mesa, foram convidados a professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Maíra Ezequiel, a coordenadora técnica do núcleo de gestão do programa Viva-SE, Ana Georgia de Almeida, e o gerente executivo de Desenvolvimento Territorial do Banco do Nordeste, Lenin Falcão.

O diálogo entre o campo de formação de novos profissionais do audiovisual com instituições públicas e privadas que investem na cultura se tornou peça-chave para iniciar o Mercado EGBÉ. Foi um momento de entender que o processo de produção passa por diversas camadas, sejam políticas, econômicas ou culturais.

“Quando a gente pensou nessa mesa de abertura foi para conhecer esse cenário do mercado sergipano, principalmente após as políticas de incentivos que a gente vem ganhando. Então, a ideia dessa primeira mesa foi realmente fazer uma exposição, fazer um movimento de entender a cadeia produtiva, desde produção, preservação, cineclube, mostras e afins”, disse o produtor executivo da EGBÉ, João Brazil.

Políticas públicas para a expansão do cinema

Para iniciar o debate, a mediadora Lu Silva detalhou os dados de investimentos na cultura e, principalmente, no audiovisual sergipano dos últimos anos. A editora destacou que houve um aumento significativo de investimento em curtas-metragens entre os anos de 2007 e 2014, passando de R$ 15.000 para R$ 50.000 destinados a cada filme.

Lu Silva ainda mostrou que Aracaju concentra a maior parte dos recursos do audiovisual e que é preciso descentralizar essas produções, como também aumentar a circulação dos projetos produzidos dentro do estado.

Em seguida, a professora Maíra Ezequiel explicou como a universidade tem pensado as políticas públicas no processo de formação dos alunos. A professora destacou que é um desafio muito grande levantar essa discussão em sala de aula, principalmente pelo contexto de estarem inseridos em uma universidade pública, no Nordeste e no menor estado do país.

Além desses fatores, esclarecer que o mercado audiovisual também é um lugar de disputa se tornou essencial para a formação. “Os alunos precisam entender como o mercado funciona e como insistir, pois precisam entender a desigualdade social e econômica que existe dentro do setor”. A professora complementou que “em um processo de formação, a gente precisa ter esse elo com o mercado, com as práticas do mercado. Isso é novo aqui. É super importante que os alunos façam parte disso, vão ser capazes de fazer trocas que são importantes para eles entenderem como é que vão atuar, de fato, no mercado”.

Como representante da Secretaria de Planejamento do Governo de Sergipe (SEPLAN/SE), Ana Georgia esclareceu como a cultura é pensada dentro do planejamento orçamentário e estratégico do governo. Ainda destacou que a cultura é um dos principais pilares para o desenvolvimento do território.

A coordenadora técnica explicou que a cultura, hoje, é tratada com intersetorialidade, em que passa pelo turismo, educação, desenvolvimento econômico, inclusão social, tecnologia e inovação. Além disso, também complementou que a secretaria vem pensando estratégias para ampliar o alcance desses recursos para as periferias e comunidades tradicionais, como também entende que é preciso buscar caminhos que priorizem projetos sem recursos.

Lenin Falcão, do Banco do Nordeste, apresentou os planos de desenvolvimento no setor cultural que o banco vem realizando. O gestor apontou que todo investimento feito em cultura tem um retorno de quase seis vezes mais; dessa forma, entende que o setor audiovisual é um grande potencial de desenvolvimento regional.

Ao explicar os prêmios do Banco do Nordeste, como o Prêmio Cinema, Lenin apontou que o banco tem priorizado dar destaque a projetos com identidade regional, ou seja, projetos que falem do próprio território, como também possuam a maior parte dos seus integrantes moradores da região. Com esse diálogo, foi possível perceber a necessidade de aumentar as produções locais e regionais para que alcancem novos patamares.

Os grandes primeiros passos do Mercado EGBÉ

A abertura do Mercado EGBÉ contou com a participação de um público bastante plural, em que estiveram presentes desde players de empresas vocacionadas até estudantes de cinema e audiovisual, caso de Vivian Rafaelli, que demonstrou alegria em estar em um espaço como esse.

“Eu achei muito importante ter o Mercado EGBÉ aqui, o primeiro mercado do estado. E poder debater esse assunto tão essencial pra gente, principalmente para mim, que ainda sou discente da faculdade e já vou me formar, além de entender qual é a perspectiva de mercado, qual é a perspectiva da gente se sustentar quando a gente sai com o diploma. Eu adorei a experiência, superou todas as minhas expectativas”, disse.

Muito além do que foi debatido, o Mercado EGBÉ já mostrou que ainda tem muitos caminhos a serem trilhados no setor, principalmente no que diz respeito ao fomento da reflexão sobre a cadeia produtiva do audiovisual. Esclarecer cada processo para quem faz parte da área e para o público em geral se tornou essencial para entender a importância de investir em cada área do audiovisual.

“É importante que a gente pense no audiovisual enquanto um mercado, enquanto produto que produzirá retornos financeiros não só para as empresas produtivas, mas também para o próprio estado. Quando a gente pensa em trabalhar com audiovisual no estado e filmar em determinados territórios, a gente está mostrando um pouco de Sergipe também”, afirmou Luciana Oliveira, diretora-geral da EGBÉ.

A EGBÉ, em sua 9ª edição, marca uma trajetória de memória e produção de conhecimento a partir de pessoas negras, que debatem e fazem circular as diferentes realidades dos mais variados territórios. O Mercado e a Mostra estão inseridos em um campo de luta, mas também de afetos.