A 9ª EGBÉ — Mostra de Cinema Negro expande seu horizonte para além das fronteiras nacionais ao dedicar sua Mostra Internacional à obra da cineasta cubana Sara Gómez, uma das figuras mais singulares e contundentes da história do cinema latino-americano. Com sessões nos dias 14 e 15 de abril, em Aracaju, a programação reúne filmes da realizadora em um gesto que não é apenas de exibição, mas também de restituição histórica, curatorial e política.
Num festival cuja 9ª edição é dedicada ao tema “A contribuição das mulheres negras no audiovisual brasileiro”, a presença de Sara Gómez na programação não aparece como um apêndice internacional, mas como uma chave de leitura fundamental para pensar imagens negras, autoria feminina, modernidade, território, pedagogia e transformação social.
Uma cineasta que filmou a revolução a partir das suas fissuras
Nascida em 1942, em Havana, Sara Gómez foi a primeira mulher a dirigir filmes no ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos), órgão criado após a Revolução Cubana e central para a renovação do cinema no país, sendo também reconhecida como a primeira mulher cubana a dirigir um longa-metragem de ficção. Em um ambiente ainda profundamente masculino e racialmente hierarquizado, sua presença já era, por si só, um acontecimento político. Mas sua importância não se resume ao pioneirismo, o que faz de Sara Gómez uma autora incontornável é a forma como ela deslocou o olhar do cinema cubano para dentro de zonas frequentemente deixadas à margem: a vida popular, a juventude, os processos de racialização, a desigualdade persistente, a pedagogia social e os impasses do projeto revolucionário.
Sua obra parte de uma pergunta que permanece urgente: como filmar um país em transformação sem apagar os conflitos que seguem atravessando seus corpos, seus bairros e suas relações sociais? É justamente nesse ponto que seus filmes se tornam tão potentes hoje. Sara não filmava Cuba como retrato fechado ou celebratório, mas como um espaço em disputa, atravessado por tensões de classe, raça, gênero, memória e pertencimento.
Há, em seu cinema, um esforço contínuo de tensionar imagens estabilizadas da sociedade cubana. Seus filmes não se interessam em organizar o mundo para torná-lo confortável ao espectador, ao contrário, insistem em mostrar que a transformação social não é um processo limpo, linear ou resolvido. É por isso que sua obra segue tão viva.

Entre documentário, ensaio e ficção: uma linguagem em invenção
Ao longo de sua trajetória, interrompida por sua morte precoce em 1974, aos 31 anos, Sara Gómez construiu uma filmografia marcada pela experimentação formal. Seus filmes transitam entre documentário, ensaio cinematográfico, observação social e fabulação narrativa, tensionado fronteiras e recusando classificações fáceis. Essa liberdade de forma não é um detalhe estético: é parte da sua política de imagem.
Na 9ª EGBÉ, o público poderá entrar em contato com diferentes momentos dessa filmografia. No dia 14 de abril, a programação apresenta De cierta manera, longa lançado postumamente em 1977, frequentemente apontado como a obra mais conhecida da cineasta. O filme combina ficção e documentário para acompanhar relações afetivas, transformações urbanas e tensões sociais em um bairro popular de Havana, tornando visíveis contradições entre projeto revolucionário e permanências estruturais do racismo, do machismo e da desigualdade.
Já no dia 15 de abril, a mostra exibe os curtas Guanabacoa: crónica de mi familia (1966) e Mi aporte (1969), dois trabalhos fundamentais para compreender a sensibilidade e o método da diretora. No primeiro, Sara parte de um território e de sua própria relação com ele para construir uma reflexão sobre memória, pertencimento e herança cultural. No segundo, investiga a inserção das mulheres no trabalho e as contradições entre emancipação formal e desigualdades persistentes. Juntos, esses filmes ajudam a perceber como sua câmera estava voltada não apenas para grandes estruturas, mas também para o modo como a história atravessa o cotidiano.
Uma conversa que atravessa fronteiras
Trazer Sara Gómez para a 9ª EGBÉ é também afirmar uma filiação e um campo de conversa. Sua obra dialoga com um campo de cinemas negros e de mulheres negras que não se limita à representatividade, mas se compromete com a construção de outras formas de pensar, registrar e imaginar o mundo.
Há algo profundamente afinado entre o cinema de Sara e a proposta curatorial desta edição da EGBÉ: o entendimento de que as mulheres negras não apenas realizam filmes, mas produzem linguagem, pensamento e deslocamentos epistemológicos. Nesse sentido, a Mostra Internacional não aparece como bloco paralelo, mas como extensão direta do eixo central da edição.
Ao olhar para Cuba, a mostra amplia a escala do debate, pois coloca o público sergipano em contato com uma linhagem cinematográfica da diáspora negra latino-americana e sugere que os debates sobre raça, imagem, trabalho, território, educação e emancipação nunca estiveram restritos a um só país. Há uma circulação de questões, de gestos e de formas de resistência que atravessa oceanos e décadas, e o cinema é uma das maneiras de perceber isso.
Janaína Oliveira e a curadoria como gesto de leitura
As sessões da Mostra Internacional serão comentadas por Janaína Oliveira, pesquisadora e curadora cuja trajetória tem sido decisiva para a formulação crítica e a circulação de cinemas negros no Brasil. Seu trabalho se destaca justamente por construir pontes entre filme, pensamento, arquivo, curadoria e política de imagem. Janaína tem atuação reconhecida em mostras, festivais e instituições culturais, além de desenvolver reflexão consistente sobre cinema negro, diáspora e historiografia audiovisual.
Ao lado de Janaína, a sessão do filme De cierta manera contará também com a participação da cineasta Everlane Moraes, ampliando o diálogo entre a obra de Sara Gómez e trajetórias contemporâneas do cinema negro feito por mulheres. Esse encontro entre filme, curadoria e conversa pública é o que torna a Mostra Internacional especialmente potente: ela não apenas exibe obras, mas cria contexto, linguagem e escuta para que essas obras possam realmente acontecer diante do público.
A programação completa da 9ª EGBÉ, com datas, horários e atividades, pode ser conferida aqui.





