Direção como construção de imagem negra: o eixo conduzido por Everlane Moraes no EGBÉ LAB

Pensar direção no cinema negro é também pensar quem constrói as imagens, quais corpos ocupam a cena e de que forma territórios historicamente atravessados pelo apagamento passam a elaborar suas próprias narrativas. No EGBÉ LAB – Fortalecendo o Cinema Negro Sergipano, esse debate estrutura o eixo de direção conduzido pela cineasta Everlane Moraes, convidada do laboratório de construção narrativa voltado ao desenvolvimento de um longa-metragem e um telefilme realizados em Sergipe.

Realizado pelo Instituto EGBÉ – Cultura e Educação Afro-brasileira, o laboratório articula formação, criação e intercâmbio a partir de metodologias relacionadas ao cinema negro brasileiro e ao audiovisual afrodiaspórico. A proposta compreende roteiro e direção como dimensões indissociáveis da construção de linguagem, promovendo um processo de desenvolvimento que atravessa não apenas estruturas narrativas, mas também questões estéticas, territoriais e políticas ligadas à imagem.

No eixo de direção, Everlane acompanha os projetos Samba de Celebração, de Luciana Oliveira, e Abya Yala: Raízes do Futuro, de Carolen Meneses, em encontros voltados à elaboração de perspectivas visuais, construção de cena e aprofundamento das propostas cinematográficas desenvolvidas pelas mentoradas.

Formada pela Escuela Internacional de Cine y TV de Cuba (EICTV), Everlane construiu uma trajetória marcada pela circulação internacional de seus filmes, pesquisas e projetos em importantes espaços do cinema contemporâneo. Seus trabalhos passaram por festivais, galerias e plataformas como Sundance, Rotterdam, BFI London, Toulouse e Womxn in Windows, enquanto seus projetos integraram laboratórios e mercados internacionais como Berlinale Talents, Cannes Doc – Marché du Film, IDFA Academy e Brasil CineMundi.

Ao longo da carreira, a diretora também recebeu apoio de fundos e programas voltados ao desenvolvimento de cinema autoral e independente, entre eles Sundance Institute, Hubert Bals Fund, IDFA Bertha Fund e Firelight Media. Fundadora da produtora Pàttàki Audiovisual, Everlane atua na elaboração de narrativas atravessadas por memória, território e experiências negras, estabelecendo conexões entre o cinema negro brasileiro e circuitos internacionais de formação, criação e circulação. Atualmente, prepara o lançamento de seu primeiro longa-metragem, O segredo de Sikán, previsto para 2027.

Sua presença no laboratório estabelece uma conexão entre a experiência internacional e os processos de criação do cinema negro sergipano contemporâneo. Além de compartilhar procedimentos técnicos de direção, sua participação dialoga com uma dimensão fundamental do projeto: a construção de imagens que rompem com formas historicamente limitadas de representação da população negra no audiovisual brasileiro.

A própria formulação do EGBÉ LAB parte da compreensão de que o cinema negro nasce de uma inquietação sobre como corpos negros foram enquadrados pela história do cinema brasileiro. O projeto defende que a produção audiovisual negra em Sergipe possui potencial para criar novas imagens sobre o estado, deslocando visões construídas a partir de olhares hegemônicos e ampliando possibilidades de representação.

Essa perspectiva aparece também nos projetos desenvolvidos durante o laboratório. Em Samba de Celebração, telefilme idealizado por Luciana Oliveira, uma mulher quilombola grávida precisa decidir se realizará a “meladinha”, celebração tradicional prevista para o nascimento de seu bebê. Já Abya Yala: Raízes do Futuro, primeiro longa de Carolen Meneses, propõe uma fabulação afrofuturista em que uma viajante do ano 3000 retorna ao passado para tentar regenerar o futuro da humanidade.

Ainda que partam de universos distintos, os dois projetos compartilham questões ligadas à ancestralidade, território e permanência. São temas que atravessam parte significativa da produção recente do cinema negro brasileiro. Nesse contexto, o eixo de direção do laboratório busca fortalecer não apenas a viabilidade dos filmes, mas também suas formas de elaboração estética e política.

A proposta do EGBÉ LAB compreende que dirigir, nesse contexto, significa construir maneiras próprias de olhar para corpos negros, para memórias afro-sergipanas e para experiências historicamente marginalizadas pelas imagens dominantes do audiovisual nacional. Ao reunir realizadoras negras sergipanas em um processo de troca com profissionais de circulação internacional, o laboratório aposta na direção cinematográfica como espaço de invenção, autonomia e disputa de imaginário.