Instituto EGBÉ amplia ações de formação audiovisual negra em Sergipe

Em iorubá, EGBÉ significa comunidade. A palavra carrega uma dimensão ancestral ligada à coletividade, ao pertencimento e aos compromissos construídos entre passado, presente e futuro. É a partir dessa compreensão que nasce o Instituto EGBÉ – Instituto de Cultura e Educação Afro-brasileira, iniciativa sergipana que amplia o trabalho desenvolvido pela EGBÉ – Mostra de Cinema Negro e passa a atuar de forma permanente na formação, articulação e desenvolvimento do audiovisual negro em Sergipe.

A criação do Instituto representa um novo momento de uma trajetória iniciada há cerca de dez anos com a Mostra EGBÉ. Ao longo desse período, o projeto expandiu sua atuação para além da exibição de filmes, promovendo ações de formação, articulação cultural e valorização da produção audiovisual negra. A institucionalização consolida esse percurso e amplia sua capacidade de atuação.

“O Instituto EGBÉ nasce como um desdobramento natural de uma trajetória construída ao longo dos últimos dez anos pela EGBÉ – Mostra de Cinema Negro. A formalização surge da necessidade de consolidar esse trabalho, ampliar seu alcance e atuar de forma mais estruturada e institucional na promoção da cultura, da educação e do audiovisual em Sergipe”, explica João Brazil, diretor institucional do Instituto.

Formação audiovisual negra em Sergipe

A proposta do Instituto é transformar a formação em um processo permanente. Em vez de concentrar suas atividades apenas durante a realização da mostra anual, a instituição passou a desenvolver oficinas, laboratórios, sessões cineclubistas em escolas públicas e comunidades tradicionais, além de ações voltadas à preservação da memória do cinema negro sergipano.

Para além de responder a uma demanda histórica do estado por espaços contínuos de qualificação profissional no audiovisual,  o instituto entende que investir em formação significa ampliar as possibilidades de atuação de realizadores locais, especialmente de pessoas negras, em diferentes etapas da cadeia produtiva do cinema. 

O Instituto EGBÉ aposta na formação audiovisual permanente como forma de ampliar as oportunidades para realizadores sergipanos e enfrentar os desafios de acesso à qualificação e ao mercado do audiovisual (Foto: Tatiane Macena).

Por meio de uma metodologia baseada na construção coletiva do conhecimento, inspirada no significado de EGBÉ, o trabalho parte da escuta das comunidades e da troca permanente de experiências entre artistas, educadores e pesquisadores. “A comunidade é um princípio central em todas as ações do EGBÉ. Entendemos comunidade a partir da ideia de circularidade, da construção coletiva e da troca permanente de saberes. Nossa proposta é criar um ambiente de colaboração, onde os participantes não apenas recebem conhecimento, mas também compartilham experiências e constroem caminhos conjuntos para o audiovisual”, afirma João.

Atuação permanente ao longo do ano 

A atuação do Instituto EGBÉ vai além da realização da Mostra de Cinema Negro, que acontece anualmente em abril. Ao longo do ano, a instituição desenvolve diferentes ações voltadas à formação, difusão e fortalecimento do audiovisual negro em Sergipe. Entre elas está o EGBÉ LAB, laboratório de desenvolvimento audiovisual atualmente em andamento, além de mostras itinerantes e sessões de cinema em escolas públicas, que promovem o acesso ao cinema negro e ampliam a formação de público em diferentes territórios.

Por meio de parceria com profissionais da EICTV, em Cuba, o EGBÉ LAB conecta realizadores sergipanos a experiências de formação audiovisual do Sul Global, valorizando narrativas ligadas aos territórios e às vivências afrodiaspóricas.

Segundo João Brazil, a experiência cubana é reconhecida internacionalmente pela formação de cineastas e profissionais do audiovisual a partir de metodologias que valorizam o olhar social e a construção coletiva. Para ele, essa troca amplia o repertório dos participantes, fortalece os projetos desenvolvidos no laboratório e cria oportunidades de colaboração internacional.

“O diferencial do EGBÉ está na integração entre formação técnica, educação antirracista, valorização das narrativas negras e compromisso com os territórios onde atua. Mais do que ensinar ferramentas audiovisuais, buscamos fortalecer trajetórias, criar redes de colaboração e contribuir para que mais pessoas negras ocupem espaços de criação, gestão e tomada de decisão no audiovisual brasileiro,” destaca o diretor. 

Ao longo do ano, o Instituto EGBÉ promove mostras em escolas públicas como parte de sua proposta de formação continuada, aproximando estudantes de narrativas negras e ampliando o diálogo entre cinema, educação e território  (Foto: Tatiane Macena)

Apesar dos avanços, produzir cinema negro fora dos grandes centros ainda significa enfrentar obstáculos relacionados ao acesso à formação, ao financiamento, à circulação das obras e às oportunidades no mercado audiovisual. É nesse contexto que o Instituto EGBÉ aposta na continuidade de suas ações para fortalecer trajetórias, ampliar possibilidades e reafirmar que o audiovisual também se constrói a partir dos territórios, das memórias e das narrativas produzidas por quem historicamente esteve à margem das telas.