EGBÉ LAB encerra ciclo com partilha sobre a criação de um longa-metragem e um telefilme

Os processos de criação do telefilme Samba de Celebração, de Luciana Oliveira, e do longa-metragem Abya Yala: Raízes do Futuro, de Carolen Meneses, foram compartilhados com o público nesta segunda-feira (10), durante o EGBÉ LAB – Partilha. Realizado no Espaço Vem de Sergipe, em Aracaju, o encontro marcou o encerramento do ciclo de desenvolvimento dos projetos e reuniu realizadores e profissionais do audiovisual em torno de questões relacionadas a roteiro, direção, orçamento, locações e escolhas estéticas.

Ao longo do EGBÉ LAB, as cineastas participaram de consultorias de roteiro com Xenia Rivery e de direção com Everlane Moraes, além do acompanhamento do mentor Victor de Rosa. Na Partilha, um percurso até então concentrado nas atividades internas do laboratório foi apresentado ao público por meio das transformações vividas pelas obras, das dúvidas enfrentadas pelas diretoras e das decisões que ainda acompanham a realização dos filmes.

Para João Brazil, produtor executivo do EGBÉ LAB e diretor institucional do Instituto EGBÉ, a atividade ampliou a dimensão coletiva do laboratório. “A Partilha é um espaço de compartilhar processos, dúvidas, descobertas e caminhos de criação”, definiu. Segundo ele, o contato com as experiências das cineastas permite que outros profissionais reconheçam possibilidades para suas obras e reflitam sobre escolhas técnicas e modos de fazer cinema.

A escuta do território em Samba de Celebração

Samba de Celebração investiga as origens e as transformações da tradição da Meladinha, realizada no Quilombo Mussuca, em Sergipe. A celebração acontece nas tardes de domingo, quando a mulher que deu à luz e seus familiares recebem o grupo Samba de Pareia e outros convidados para comemorar o nascimento da criança por meio do canto, da dança e da confraternização. A partir dessa prática ancestral, o filme reflete sobre os laços afetivos que atravessam a maternidade, a ancestralidade e a vida comunitária, e como resistem às transformações do tempo e às modificações sociais que atualmente ameaçam essas tradições.

Durante o laboratório, Luciana Oliveira foi provocada a observar a proposta também a partir de suas condições concretas de realização. “A consultoria me provocou um olhar pragmático sobre a proposta do filme”, afirmou. Esse movimento levou a diretora a reconsiderar caminhos do projeto sem abandonar sua essência e o cinema que deseja construir.

Luciana destacou a importância de ouvir o que o território vivo diz e permitir que a comunidade da Mussuca também conduza a construção das imagens de Samba de Celebração (Foto: Vinícius Dórea)

As consultorias também fortaleceram uma abordagem aberta à participação da comunidade e aos acontecimentos do próprio território. Para Luciana, a pesquisa e o planejamento não encerram as possibilidades do filme: a convivência com a Mussuca deverá orientar a construção das imagens e permitir que a obra responda ao que surgir durante as filmagens.

O telefilme encerra sua participação no EGBÉ LAB em pré-produção, com o roteiro finalizado após o processo de amadurecimento. A previsão é que as filmagens sejam realizadas ainda neste semestre.

Afrofuturismo sergipano em desenvolvimento

Primeiro longa-metragem de Carolen Meneses, Abya Yala: Raízes do Futuro acompanha uma cidadã do ano 3000 que viaja até 2028 para resgatar a semente da única árvore luminosa capaz de regenerar a flora de seu tempo. Para cumprir a missão, ela precisa convencer uma de suas ancestrais de que o futuro da humanidade depende dessa semente.

Carolen trabalha na história desde o final de 2022. Uma das imagens que deram origem ao projeto surgiu durante uma disciplina na Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba. Em uma dinâmica conduzida por um professor, a cineasta se imaginou à deriva em uma embarcação e relacionou a cena ao sentimento de deslocamento vivido por ela nos espaços do cinema, descritos como majoritariamente brancos e elitistas.

Nesse contexto, desenvolver uma narrativa afrofuturista em Sergipe envolve desafios artísticos e também as condições encontradas por uma cineasta negra para realizar seu primeiro longa. “O EGBÉ LAB nos coloca em um lugar seguro para falar sobre as nossas narrativas”, afirmou Carolen.

Carolen quer provocar discussões sobre o modelo de sociedade a partir de um afrofuturismo construído em Sergipe (Foto: Vinícius Dórea)

As consultorias contribuíram para o amadurecimento da estrutura do roteiro e para o aprofundamento da trajetória das personagens. “Durante as consultorias do EGBÉ LAB, avançamos no amadurecimento dos caminhos estruturais do roteiro, mas, principalmente, aprofundamos a reflexão sobre a jornada das personagens”, explicou.

Na etapa atual, a diretora se dedica ao estudo da linguagem cinematográfica e à busca por soluções de produção. Entre suas preocupações estão a profissionalização da equipe, as condições de trabalho durante as filmagens, o orçamento disponível e a realização das cenas previstas no roteiro. Carolen também pretende preparar o longa para circular em festivais nacionais e internacionais.

Partilha provoca reflexões sobre outros projetos

Entre os participantes entrevistados após a atividade, as experiências apresentadas pelas cineastas despertaram reflexões sobre o tempo necessário para desenvolver uma obra, a relação entre criação e viabilidade e a importância de receber diferentes leituras sobre um projeto.

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Caio Rodrigo procurou a Partilha para conhecer de perto os percursos das duas diretoras. Para ele, “ter referências aqui no nosso estado é super importante”. O encontro também o estimulou a retomar uma história que havia deixado em segundo plano e reforçou a necessidade de acreditar no projeto que está criando.

Caio Rodrigo encontrou na Partilha uma oportunidade de ampliar seu olhar sobre o desenvolvimento de longas (Foto: Vinícius Dórea)

A filmmaker Júlia Viegas participou movida pela curiosidade sobre o desenvolvimento de obras de maior duração. Ao final, destacou a paciência exigida pelo processo, a capacidade de escutar perspectivas diferentes e a abertura para receber críticas sem reagir de forma defensiva.

O cineasta Andrei Ferreira, que também desenvolve um roteiro de longa-metragem, relacionou as discussões da Partilha ao seu próprio trabalho. As conversas sobre locações, orçamento e direção de arte mostraram como decisões tomadas na pré-produção podem interferir na escrita e exigir reformulações para tornar uma obra realizável. Segundo Andrei, as apresentações já provocaram reflexões que serão incorporadas à reescrita de seu roteiro.

Formação e continuidade

De acordo com João Brazil, a criação do EGBÉ LAB partiu da observação do crescimento e da diversidade do cinema negro sergipano, impulsionados, segundo ele, pelas políticas públicas federais. O laboratório foi concebido para contribuir com a consolidação dessa produção, oferecendo orientação para que um longa-metragem e um telefilme amadurecessem em suas dimensões artísticas, técnicas e de inserção no mercado.

Com a Partilha, o desenvolvimento das duas obras passou a dialogar com outros realizadores e projetos em construção. Para o Instituto EGBÉ, a experiência também oferece elementos para aprimorar futuras iniciativas de formação e ampliar as ações voltadas ao desenvolvimento do audiovisual negro em Sergipe.