No EGBÉ LAB, Abya Yala: Raízes do Futuro desenvolve narrativa afrofuturista sobre ancestralidade e meio ambiente

Dirigido pela cineasta Carolen Meneses, o longa-metragem Abya Yala: Raízes do Futuro é um dos projetos acompanhados pelo EGBÉ LAB em seu processo de desenvolvimento. O filme acompanha uma personagem oriunda do ano 3000 que retorna ao passado em busca de respostas capazes de salvar a flora de seu tempo. A partir dessa premissa, a obra propõe uma reflexão sobre memória, território e preservação da vida por meio de uma abordagem afrofuturista construída a partir de referências afro-diaspóricas e latino-americanas.

O título do filme remete ao nome utilizado pelos povos originários para se referirem ao continente americano antes da colonização. O conceito de Abya Yala, que significa “terra viva”, atravessa toda a construção narrativa da obra, sendo apresentado como um território de resistência para os povos originários e para as populações trazidas do continente africano. Ao mesmo tempo, o filme evidencia as constantes ameaças decorrentes da exploração dos recursos naturais do território, que colocam em risco a existência de corpos dissidentes.

Ao longo do EGBÉ LAB, o projeto passou por consultorias conduzidas por Xenia Rivery, no eixo de roteiro, e Everlane Moraes, no eixo de direção, que contribuíram para o amadurecimento do roteiro e para o aprofundamento da trajetória de suas personagens. Segundo Carolen, o processo foi fundamental para consolidar as escolhas dramatúrgicas da obra. “Avançamos no amadurecimento dos caminhos estruturais do roteiro, mas, principalmente, aprofundamos a reflexão sobre a jornada das personagens. Entrei no processo de forma muito aberta, confiando no trabalho das consultorias e na seriedade dos espaços propostos pelo EGBÉ”, destaca. 

As consultorias também contribuíram para identificar pontos que ainda poderiam ser desenvolvidos no projeto, além de potencializar aspectos já presentes na narrativa. Para Carolen, esse processo foi fundamental para o amadurecimento do longa, especialmente diante da expectativa de iniciar a produção em breve. “Para mim, que pretendo produzir o filme em breve, é muito importante deixar a história o mais redonda possível, para transmitir ao público a mensagem do filme de forma clara e consciente”, diz.

A origem de Abya Yala: Raízes do Futuro

Formada em Cinema pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e especializada em Roteiro pela Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), em Cuba, Carolen Meneses é sócia da Floriô de Cinema, produtora independente de Sergipe, onde atua nos eixos de produção, difusão e formação audiovisual. Seu curta-metragem Ímã de Geladeira venceu a 4ª edição do Lab Negras Narrativas e integrou a programação de festivais como Tiradentes e Gramado, onde recebeu Menção Honrosa. Contemplado pela Lei Paulo Gustavo, Abya Yala: Raízes do Futuro marca sua estreia na direção de longa-metragem.

A origem do projeto remonta ao período em que a cineasta estudava na Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba. No final de 2022, durante uma disciplina da EICTV, um professor propôs uma dinâmica de meditação na qual os estudantes deveriam refletir sobre situações que os inquietavam. Ao longo do exercício, Carolen se imaginou à deriva em uma embarcação, imagem que associou ao sentimento de deslocamento que vivenciava nos espaços do cinema, historicamente marcados pela predominância de pessoas brancas e por estruturas elitizadas.

A partir dessa experiência, começou a desenvolver a história de uma personagem que viaja no tempo através da água para conhecer sua comunidade no passado. Aos poucos, o projeto passou a incorporar discussões políticas e experiências acumuladas ao longo de sua atuação junto aos movimentos sociais.

“Naturalmente, fui entrelaçando à narrativa as discussões políticas das quais participei ao longo da vida, em razão da minha relação com os movimentos sociais que me moldaram até aqui. O afrofuturismo surge de forma orgânica nas minhas obras. Hoje, escrevo com consciência da utilização desse gênero e gosto de incorporá-lo aos meus filmes autorais, pois é nesse espaço que encontro liberdade para experimentar linguagem, criatividade e técnicas narrativas, algo muito difícil dentro das dinâmicas do mercado audiovisual”, relata.

Ancestralidade, meio ambiente e futuro 

Ao articular ancestralidade, território e futuro, o longa utiliza a ficção especulativa para refletir sobre questões urgentes do presente. Além de imaginar mundos possíveis, a obra propõe uma reflexão sobre a crise ambiental e a relação da humanidade com a natureza. Abya Yala: Raízes do Futuro acompanha uma cidadã abya-yalense do ano 3000 que retorna ao passado para garantir a sobrevivência ambiental de seu tempo. Em sua jornada, ela precisa resgatar a semente da única árvore luminosa capaz de regenerar a flora do futuro. 

Ao chegar ao ano de 2028, Abya Yala encontra um novo desafio: convencer uma de suas ancestrais de que o destino da humanidade depende daquela missão. (Imagem: Augustinho)

A preocupação com o meio ambiente perpassa todo o desenvolvimento da obra. Para Carolen Meneses, o filme dialoga diretamente com um momento crítico da história, marcado pelo avanço acelerado das mudanças climáticas e pela exploração contínua dos recursos naturais. Inspirada por perspectivas como as do líder quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo, a diretora propõe uma visão que ultrapassa a ideia de preservação ambiental como simples conservação dos recursos.

“Apesar dos acordos firmados entre grandes potências para a redução das emissões de CO₂, na prática, esses compromissos avançam lentamente. Enquanto isso, a exploração de combustíveis fósseis e minerais segue em ritmo intenso. No Brasil, políticas de incentivo à instalação de data centers por empresas estrangeiras também levantam preocupações, tendo em vista o pouco debate com a sociedade civil, já que esses empreendimentos consomem grandes quantidades de recursos naturais e podem impactar diretamente comunidades tradicionais que dependem desses territórios para sua sobrevivência”, observa.

Nesse contexto, a ficção especulativa torna-se uma ferramenta para pensar os impactos das escolhas feitas no presente. Segundo a cineasta, o gênero permite evidenciar os riscos de uma relação predatória com a natureza, ao mesmo tempo em que aponta caminhos inspirados nos conhecimentos e modos de vida das comunidades tradicionais. “Utilizo a ficção especulativa para enfatizar que o futuro que nos aguarda, caso a gente não entenda os limites da natureza, é um ponto de não retorno para a humanidade. Algo que ainda pode ser recuperado não apenas com a preservação, mas com a relação de troca que podemos construir, assim como as comunidades tradicionais”, afirma.

Ao imaginar futuros negros a partir de Sergipe, Carolen também amplia a discussão para o próprio campo audiovisual. Para ela, pensar o futuro significa fortalecer políticas públicas voltadas para cinemas dissidentes e descentralizados, capazes de construir novos imaginários e ampliar as possibilidades de representação. “O futuro é pensar em uma cinematografia que possa pautar a relevância de políticas públicas para os cinemas dissidentes e descentralizados. Acho que é a partir da consolidação desses movimentos artísticos que moldamos imaginários mais conscientes da sua existência no mundo, menos manipuláveis pelo sistema capitalista e mais capazes de intervir em suas realidades”, conclui.

O acompanhamento de projetos como Abya Yala: Raízes do Futuro integra a proposta do EGBÉ LAB de fortalecer obras em diferentes estágios de desenvolvimento, contribuindo para o amadurecimento artístico, narrativo e estratégico de realizadores e realizadoras negras do audiovisual.