Mercado EGBÉ estreia nesta semana com foco na circulação e negociação de projetos audiovisuais negros

A primeira edição do Mercado EGBÉ começa nesta semana, em Aracaju, colocando Sergipe no centro de uma agenda ainda pouco estruturada no país: a da circulação, negociação e inserção profissional de projetos audiovisuais negros. Integrando a programação da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro, a iniciativa reúne rodadas de negócios, pitching público e debates que colocam em contato direto realizadores, produtoras independentes e representantes de empresas do setor.

O conjunto de projetos que chega à etapa presencial do Mercado ajuda a dimensionar esse recorte. Entre as obras selecionadas para as rodadas de negócios e para o pitching, há longas, curtas e séries que atravessam território, memória, religiosidade, desejo, infância, tradição e disputa por pertencimento. A seleção aponta para um campo em expansão, mas ainda marcado por desigualdades de acesso, circulação e financiamento.

Parte desse panorama aparece em projetos que partem de experiências localizadas sem abrir mão de densidade estética e ambição de circulação. É o caso de Mãe Mangue, que acompanha marisqueiras quilombolas no sul de Sergipe; de Luena, que articula Brasil e Angola a partir da trajetória da antropóloga Luena Nascimento; e de Originários, série documental voltada às lutas dos povos indígenas em Sergipe e seu entorno. São obras ancoradas em território, mas que operam também em escala histórica, política e simbólica.

Em outra frente, a seleção se volta a estruturas de poder que continuam organizando o presente. Onilé inscreve o passado escravista no interior de uma escola de artes contemporânea; Espólio parte de um conflito entre uma construtora e um quilombo para discutir herança, apagamento e propriedade; Francisca Luís reconstrói a Salvador de 1579 para pensar liberdade, desejo e dissidência a partir de uma mulher negra liberta. Em registros distintos, os projetos revelam um movimento importante: narrativas negras que operam tanto no campo do conflito histórico quanto na invenção de linguagem, imaginário e complexidade dramática.

Ao reunir projetos em diferentes estágios, a seleção oferece também um retrato de um setor em movimento, que amplia sua capacidade de criação, mas ainda esbarra em limites concretos de continuidade. É nesse ponto que um mercado como o EGBÉ ganha relevância. Em vez de operar apenas como vitrine, ele busca aproximar projeto e cadeia produtiva, uma dimensão que ainda permanece concentrada em poucos centros e acessível a um número restrito de realizadores. A combinação entre consultorias, rodadas de negócios e pitching responde justamente a uma lacuna persistente no setor: a distância entre a criação dos projetos e os espaços concretos de negociação, circulação e continuidade profissional.

Esse desenho ganha densidade também pela consultoria de Cláudia Gonçalves, produtora executiva com trajetória ligada a mercados e laboratórios voltados a realizadores negros. Sua atuação na construção desta primeira edição ajuda a situar o Mercado EGBÉ não apenas como iniciativa de formação ou vitrine, mas como uma plataforma pensada a partir de dinâmicas concretas de desenvolvimento e circulação no setor audiovisual.

A programação desta primeira edição ajuda a materializar essa proposta. As rodadas de negócios, que acontecem no dia 9 de abril, reúnem os projetos selecionados com representantes de empresas e players convidados, em reuniões voltadas a desenvolvimento, coprodução, licenciamento, distribuição e desenho de audiência. Participam desta edição nomes ligados a Globoplay, Canal Curta!, Conspiração Filmes, Tem Dendê Produções, Cinema Inflamável, Fistaile e Descoloniza Filmes.

Na sexta-feira, 10 de abril, a programação se abre também ao público com o Pitching de Projetos Audiovisuais, sessão em que parte dos selecionados apresenta seus projetos à banca convidada e ao público presente. A atividade terá participação de títulos como Você precisa lembrar, Ton Toy: um mestre dos sons de Sergipe, Candomblé de Sergipe, Lápis de Cor e Fábio e Américo: um amor no improviso, entre outros. Os ingressos gratuitos podem ser retirados no Sympla.

Ao lado das negociações, a programação inclui mesas públicas que ajudam a situar o Mercado em um debate mais amplo sobre política audiovisual e organização do setor. Entre os temas desta edição estão “Políticas públicas para a expansão do cinema sergipano” e “Empresas vocacionadas: o que são e seu impacto no mercado audiovisual”, indicando que a proposta não se limita ao encontro entre projetos e empresas, mas se volta também às condições estruturais de permanência no setor.

A chegada do Mercado EGBÉ à sua primeira edição acontece em um momento em que a produção audiovisual negra brasileira demonstra vitalidade criativa, diversidade de formatos e maior presença territorial, mas ainda enfrenta gargalos históricos de circulação e inserção profissional. Ao criar uma plataforma voltada especificamente a esse encontro entre projeto, mercado e pensamento crítico, a EGBÉ amplia seu campo de atuação e abre uma frente que toca diretamente no futuro dessas obras: sua capacidade de encontrar meios concretos de existir, se sustentar e alcançar público.

Projetos selecionados para o Mercado EGBÉ

A primeira edição do Mercado EGBÉ reúne projetos apresentados por realizadores e representantes de diferentes estados do país, entre longas, curtas e séries em desenvolvimento, produção e finalização.

Participam das rodadas de negócios os seguintes projetos e representantes:

  • Fábio e Américo: um amor no improviso — Natara Ney (RJ)
  • Balancê — Fellipe Paixão (SE)
  • Quando a chuva passar — Bruno Santos Costa (SE)
  • Telefone sem fio — Rossandra Santos (RJ)
  • Luena — Felipe Moraes Nascimento (SE)
  • Mãe Mangue — Elizeu Santos Gonçalves (SE)
  • O Ano Delas — Virna Paz (CE)
  • De tudo que poderia te deixar — Roberto Oliveira (SP)
  • Onilé — Sidjonathas Araújo (SE)
  • Originários — Héloa (SE)
  • Represa — Douglas Santos Barros (SE)
  • Egressas: vida após o cárcere — Marcos Sergio Vieira dos Santos (SE)
  • Ton Toy: um mestre dos sons de Sergipe — Bluesvi Santos (SE)
  • Rua 9 — Renato Candido (SP)
  • Emílio Santiago: a voz mais perfeita do Brasil — Marcos Roza (RJ)
  • Belas das Artes — Hugo Marcelo Lima (RJ)
  • Francisca Luís — Naira Évine (BA)
  • Lápis de Cor — Larissa Fulana de Tal (BA)
  • Espólio — Tiago Silva (PR)
  • Pluma — Rosy Nascimento (RN)

Foram selecionados para o pitching público:

  • Você precisa lembrar — Jonta Oliveira (SE)
  • Lápis de Cor — Larissa Fulana de Tal (BA)
  • Ton Toy: um mestre dos sons de Sergipe — Bluesvi Santos (SE)
  • Onilé — Sidjonathas Araújo (SE)
  • Candomblé de Sergipe — Deloer Américo Junior (SE)
  • Francisca Luís — Naira Évine (BA)
  • Fábio e Américo: um amor no improviso — Natara Ney (RJ)

Foto: Pritty Reis