Texto de Valter Davi1
Onze de abril de dois mil e vinte e seis. Era início de noite, um sábado de poucas nuvens no céu, o ar úmido carregado de calor. No palco do cinema que fica no Museu da Gente Sergipana, em Aracaju, Michelle Pereira dava corpo à dança afro de Mercedes Baptista. Michelle rasgou a máscara do balé francês para se reviver dentro da gira. Seus braços eram como espadas: cortavam o vento e apontavam caminhos. Suas pernas se curvavam e rodavam, fazendo sua saia virar onda do mar. E, de toda a beleza que estava a nos encarar, o encanto tinha um destino: enfeitiçar uma pessoa, Lilian Solá Santiago.
Com a cabeça coberta por um pano, Lilian estava sentada na primeira fileira, colada ao palco. Bastou Michelle se cobrir de Mercedes para que Lilian começasse a prever o que viria. Todos sabiam que a dança iria rodar aquele cinema, menos Lilian. É que aquela dança era dedicada a ela, a quem acompanhou a vida de Mercedes Baptista e lhe fez um filme, colocando em tela o que nos palcos não cabia. A surpresa era apenas mais um detalhe a compor a festa.
Lilian Solá Santiago foi a homenageada da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro. Os agradecimentos por seu trabalho vieram de diferentes formas: de um convite à mostra, de uma celebração por sua contribuição ao audiovisual, de um troféu, de muitos abraços. Mas, a cada momento, surgia mais uma forma de demonstrar que sua vida importa. E nada a preparou para aquele início de noite de sábado.
Sentado ao lado de Lilian estava Severo D’Acelino, poeta, dramaturgo, ator, ativista, diretor teatral e tantas coisas mais. Severo é uma figura central no debate sobre o movimento negro; suas artes foram, e são, fundamentais para repensar os corpos negros em diferentes espaços. Seu nome carrega memória. Seu conhecimento é lembrado no troféu que, neste ano, foi entregue a Lilian Solá Santiago.
O Troféu Severo D’Acelino está presente na EGBÉ desde sua primeira edição, em 2016. Surge diante da ausência de debates e homenagens à Severo em espaços de produção e difusão de conhecimento. Esse incômodo acompanhava Luciana Oliveira, diretora-geral e artística da EGBÉ, por todos os lugares por onde passava, desde as universidades até os festivais de cinema.
“Para além de ser um ativista muito importante do movimento negro, Severo é um artista. Ele é um ator que fez o protagonista de um filme muito conhecido no Brasil todo, Chico Rei, nos anos 80. Por que esse ator não estava em evidência? Esse ator negro, com sua bagagem, esse corpo que dança, que canta e que performa. Que é um ator”.
E assim, Severo D’Acelino segurou o troféu marcado com seu nome. E assim, Severo D’Acelino entregou o troféu marcado com seu nome a mais oito pessoas. Tornou-se ritual sua presença em vida homenageando outras vidas.
É um momento de ruptura em relação a diversos espaços que homenageiam pessoas já falecidas, relembrando suas trajetórias sem poder ver seus rostos sentados na primeira fileira de um cinema lotado, por exemplo.
Naquele sábado, o ritual começou. Lilian foi chamada ao palco, Severo a acompanhou. Os olhos de cada um se encontraram e, sob a luz que se difundia em seus rostos, desenhando sombras nas bochechas, via-se apenas o brilho das lágrimas de emoção.
Em silêncio, o troféu passou das mãos de Severo para as de Lilian, que o segurou com tanto cuidado como se, a qualquer momento, pudesse se estilhaçar. Seu sorriso, amalgamado de emoção, não se continha: libertava-se como a dança de Mercedes.
“Eu acho que eu nunca tinha entendido o trabalho da Mercedes em paralelo com o meu. Acho que essa performance, quando começa com aquela parte mais eurocêntrica, tentando ser bailarina, e, dentro disso, encontra força para achar sua própria expressão… Acho que esse é um caminho que eu faço também. Eu só quero que as pessoas se inspirem em caminhos assim, porque a gente precisa de novos movimentos que nos representem, que mostrem nossa beleza. Olha como ela cresceu quando larga a mão daquele negócio de balé clássico e traz o corpo dela para a beleza que ele realmente é. Achei lindo, foi demais, estou muito feliz”.
Homenagear quem ainda segue construindo a vida é uma forma de apoio, de impulsionar o artista a continuar fazendo o que faz. Em um meio atravessado por diversas violências, passa pela cabeça de quem produz arte a vontade de desistir. Desestimula, faz sangrar. O troféu nada mais é do que uma mensagem gritando: respire, e vamos juntos.
“O normal das homenagens é homenagear gente que já se foi, com placas que honram trajetórias de pessoas que provavelmente morreram infelizes, sem saber da própria importância para outras pessoas e para a história. Então, esse movimento, para mim, de estar recebendo um prêmio com o nome do Severo e ele me entregando, é muito lindo. Eu espero que isso aconteça mais, isso tem que acontecer mais. Porque tanto eu quanto ele, e muitas pessoas que estão aí, precisam ser honradas em vida, para que a gente tenha mais força para continuar. Estamos sendo honrados e honrando os que vieram antes de nós, e isso honra, e honrará também, os que vêm depois”.
A EGBÉ vai se tornando cada vez mais um lugar de aquilombamento. As pessoas vão chegando, doam o pouco que sabem e recebem o muito que é colhido. Tantos griôs já passaram pela EGBÉ e contaram suas histórias, mostraram seus mundos. Quantos ainda passarão.
A EGBÉ existirá para que muitos outros artistas negros e negras possam sentar na primeira fileira de um cinema, em um início de noite de sábado, e receber um troféu por sua existência.
- Repórter EGBÉ da 9ª edição. Jornalista, escritor e mestrando em Comunicação pela UFS (PPGCOM). ↩︎





