Em Acupe, o corpo é território de memória e de dor

Acupe
Direção: Rafa Martins
Ano: 2024
País: Brasil (BA)
Duração: 7 min
Classificação indicativa: Livre

Crítica de Wolney Nascimento Santos1

Acupe é o topônimo, em tupi, de “terra quente”. Trata-se de um território quilombola onde historicamente viveram, primeiro, os povos originários; depois, os colonizadores e as populações negras escravizadas vindas da África para a produção de açúcar nos engenhos da região do Recôncavo Baiano. É banhado pela Baía de Todos-os-Santos, de onde seus habitantes afrodescendentes sobrevivem por meio da pesca artesanal, da mariscagem e da agricultura familiar.

Acupe é o filme do ator, produtor e diretor Rafa Martins e narra a história do distrito, pertencente ao município de Santo Amaro da Purificação, a partir das tradições populares que ocorrem aos domingos do mês de julho — Nego Fugido e Caretas de Acupe. O filme apresenta dois lados e o meio da dimensão histórica e memorial de seus habitantes.

Nego Fugido é um autodramático que acontece pelas ruas do distrito, rememorado, por meio de crianças e adolescentes com os rostos pintados de carvão e óleo, a boca vermelha e vestindo saias feitas com folhas secas de bananeira, a fuga de pessoas negras escravizadas das fazendas em busca da liberdade nos quilombos e mocambos. Enquanto isso, feitores, caçadores e negros pagos tentam capturá-los. O autoculmina no último domingo, quando chega a alforria.

Caretas de Acupe é uma festa que remete a um baile de máscaras promovido por um senhor de engenho conhecido por sua crueldade. Segundo a tradição oral, alguns de seus escravizados confeccionaram máscaras próprias, com formas e imagens horripilantes, muito distintas dos padrões da época, e compareceram ao baile, provocando medo entre os presentes e dando origem à alcunha “Caretas” (ou “Máscaras”).

O Meio refere-se aos mestres, mestras e aos moradores brincantes, cuja simplicidade e hospitalidade acolhem aqueles que desejam participar das festas.

O filme inicia com fotogramas em efeito de textura meio-tom, resultante da sobreposição das cores preto e vermelho em pontos de retículas sobre uma superfície branca. Esse recurso parece remeter ao corpo negro escravizado: o carvão e o óleo que tingem a pele, o vermelho da boca, da carne e do sangue violentados pelo processo de colonização escravagista. 

Sobre esse estigma violento vivido pelos primeiros negros de Acupe é que o filme se articula, ao construir uma representação dramática do martírio da escravidão, a partir da perspectiva de compreender como esse cativeiro, que marcou profundamente a história, é intensamente revivido entre seus descendentes. Que relações e objetivos se colocam ao emprestar o próprio corpo como território de encontro com a memória e com a dor? 

A construção visual se desdobra na voz em off, responsável pela narração da história. No entanto, não se sabe a quem pertence essa voz. Podemos interpretá-la como uma voz-corpo-imaterial, que nos leva a refletir sobre as múltiplas realidades de Acupe e sobre quem fala por elas. Trata-se de um corpo-imaterial constituído pelas sete mil memórias de seus habitantes, que ressignificam o mito fundador do distrito por meio de estratégias de resistência e luta contra o regime colonizador.

As manifestações culturais do Nego Fugido e das Caretas de Acupe, realizadas no mês de julho, celebram, oram e limpam os caminhos dos habitantes do distrito. Reverenciam práticas, saberes e memórias ancestrais, com o intuito de afastar as pragas e os presságios do processo colonizador que se anunciam para o mês de agosto.

O filme Acupe nos convida a pensar como as manifestações folclóricas e culturais atuam em múltiplas dimensões, em campos distintos de conflitos, reconstituindo o cotidiano e a relação de pertencimento com a memória, a cultura e com o estar no mundo.

  1. Participante da Oficina de Crítica Cinematográfica da 9ª EGBÉ, dedicada à análise dos filmes da Mostra Oficial, sob orientação da professora e pesquisadora Kênia Freitas.  ↩︎