Sessões e debates colocam mulheres negras no centro do audiovisual na 9ª EGBÉ

A programação da 9ª edição da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro seguiu movimentando o público nesta quarta-feira em Aracaju. As atividades ocorreram em dois espaços: durante a tarde, no Sesc Comércio, e, à noite, no cinema do Centro Cultural de Aracaju. A agenda do dia incluiu uma sessão internacional dedicada à cineasta cubana Sara Gómez, a sessão “Corpo, memória e reconstrução”, da Mostra Oficial, e uma mesa de debate sobre a contribuição das mulheres negras no audiovisual brasileiro.

O início da tarde foi dedicado à obra de Sara Gómez, considerada uma das realizadoras mais importantes do cinema latino-americano. Primeira mulher em Cuba a dirigir um longa-metragem de ficção, a cineasta deixou uma contribuição significativa ao articular linguagem cinematográfica e questões sociais em seus filmes. Embora tenha falecido precocemente, Sara Gómez deixou uma contribuição marcante ao cinema ao relacionar linguagem cinematográfica e reflexões sociais em suas obras. Nelas, questionava o lugar das mulheres na sociedade e da revolução.

Foram exibidos os filmes Mi aporte e Guanabacoa, e após a sessão, o público participou de um momento de comentários e troca de impressões sobre as obras apresentadas. A conversa contou com a participação de Kênia Freitas, crítica e curadora de cinema, pesquisadora de afrofuturismo e cinema negro, e de Vinícius Dórea, cineasta e pesquisador. Após as falas dos convidados, o público também pôde participar do debate, compartilhando reflexões sobre os filmes exibidos.

Kênia Freitas e Vinícius Dórea participam de sessão comentada, ampliando as leituras sobre os filmes exibidos e suas conexões com o cinema negro contemporâneo (Foto: Mavi Retrata)

O estudante de audiovisual Nicolas Barbosa destacou a importância de iniciativas como a mostra para ampliar o acesso ao cinema e fortalecer a formação cultural do público. “É muito importante porque a gente acaba conhecendo um pouco mais da nossa própria cultura. Também contribui para a valorização da arte e do cinema. Através dessas atividades, conseguimos conhecer mais do passado e também do presente. Então, é algo muito importante do ponto de vista cultural”, disse.

Para a diretora-geral e artística da mostra, Luciana Oliveira, trazer os filmes da cineasta para a programação foi uma forma de conectar o legado da diretora às discussões propostas nesta edição do evento. “Sara Gómez foi uma cineasta cuja obra continua muito presente. Por isso, é interessante pensarmos nela no presente, mesmo após sua passagem. O trabalho dela é muito importante para pensar a linguagem cinematográfica e também as questões sociais que atravessam seus filmes. A obra de Sara Gómez é fundamental para pensarmos o cinema da América Latina e, acredito, o cinema mundial como um todo”, afirmou.

Segundo a diretora, dedicar sessões à realizadora também dialoga com a proposta da mostra neste ano, voltada ao cinema realizado por mulheres negras (Foto: Mavi Retrata)

Corpo, memória e reconstrução nas telas

No período da noite, a programação seguiu com a sessão Corpo, memória e reconstrução, focada em provocar uma reflexão sobre o cinema como prática de reinscrição de histórias e saberes. Com a exibição dos filmes Da Pele Prata (dir. Safira Moreira), Acupe (dir. Rafa Martins), O Sonho de Anu (dir. Vanessa Kypá) e Vermelho de Bolinhas (dir. Renata Fortes e Joedson Kelvin), o público experienciou o resgate de narrativas ancestrais em busca de identidades.

Em Da Pele Prata, arte, espiritualidade e identidade se articulam a partir da criação de joias ligadas aos orixás, enquanto Acupe observa festas populares como territórios de memória e disputa. Já em O Sonho de Anu, sonho e ancestralidade operam como tecnologias narrativas, ao lado de Vermelho de Bolinhas, que revisita a construção simbólica de uma jovem marcada pela violência no interior do Ceará.

Público acompanha sessão da Mostra Oficial no Centro Cultural de Aracaju (Foto: Mavi Retrata)

Mulheres negras e a construção do cinema brasileiro

Em seguida, aconteceu a mesa de debate dedicada à contribuição das mulheres negras no audiovisual brasileiro, tema central desta edição da EGBÉ. O encontro reuniu profissionais que atuam em diferentes frentes do setor, que compartilharam suas trajetórias no cinema, os desafios enfrentados e apresentaram um panorama sobre a realidade da mulher negra no audiovisual. Participaram da conversa a cineasta Everlane Moraes, a diretora e pesquisadora Naira Évine e a pesquisadora e curadora Kênia Freitas.

A mediação foi realizada pela roteirista sergipana Ângela Alekole, que também integrou a curadoria da Mostra Oficial deste ano (Foto: Mavi Retrata)

Durante o debate, Naira Évine destacou a importância de reconhecer as diferentes formas de participação das mulheres negras na construção do cinema brasileiro. “Para mim, é muito importante pensar na construção dessas mulheres e na contribuição que elas deram ao longo de todo esse tempo. Ainda existe uma tendência de focar muito na direção, em quem está mais visível. Mas esquecemos de todas as outras mulheres negras que também contribuíram para o cinema: atrizes, preparadoras de elenco, secretárias, cozinheiras, motoristas. As mulheres negras sempre construíram o cinema, assim como sempre construíram o Brasil”, afirmou.

Naira Évine compartilha reflexões sobre a presença de mulheres negras no cinema brasileiro durante debate da Mostra (Foto: Mavi Retrata)

Kênia Freitas chamou atenção para a forma como essa presença foi historicamente invisibilizada. “Quando a gente olha para a história do cinema negro brasileiro, percebe que ela é fragmentada e marcada por apagamentos. Muitas dessas mulheres não foram reconhecidas no seu tempo, e só mais recentemente começam a ser incorporadas a esse debate”, disse.

Ângela Alekole ressaltou que o cinema, assim como outras artes, está diretamente relacionado ao acesso aos meios de produção. “O cinema passa pela questão do poder de produção: quem tem acesso à fala e quem tem acesso à produção de imagens. Assim como vemos precarização em áreas como educação e saúde, o cinema também passa por esses processos. E, dentro desse contexto, mulheres negras acabam sendo ainda mais afetadas”, pontuou.

Para ela, reunir essas profissionais em um espaço de diálogo também representa um gesto político. “Reunir essas mulheres hoje para falar sobre cinema é um movimento contra-hegemônico. É criar um espaço para corpos que historicamente não tiveram acesso a esses lugares de expressão e debate.”

A programação da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro segue até sábado, com sessões de filmes, debates e atividades culturais.