Celebrando a contribuição de mulheres negras no audiovisual, EGBÉ abre programação da 9ª mostra

No último sábado (11), no Museu da Gente Sergipana, a EGBÉ – Mostra de Cinema Negro realizou a cerimônia de abertura de sua 9ª edição. Com o tema “A contribuição das mulheres negras no audiovisual brasileiro”, o evento destaca o protagonismo dessas realizadoras no cinema nacional. O primeiro dia da Mostra foi marcado por uma programação diversa, que reuniu formação, exibição de filme, homenagem, apresentação artística e a Feira do Mangaio Negro, espaço dedicado à valorização do afroempreendedorismo, da criação artística e da cultura negra.

A programação começou com uma masterclass em que a cineasta, pesquisadora e professora Lilian Solá Santiago apresentou reflexões sobre o Dogma Feijoada e suas contribuições para a construção do cinema negro no país. A cerimônia de abertura foi conduzida por Maluh Andrade, que iniciou a noite com uma saudação cantada a Oxum. Na sequência, Lilian recebeu o troféu das mãos de Severo D’Acelino, que dá nome à premiação, e foi surpreendida por uma performance inspirada em um de seus filmes. O momento marcou um dos pontos mais emocionantes da abertura.

Lilian Solá Santiago ministra a masterclass de abertura “Uma mulher no Dogma Feijoada” (Foto: Lucas Rabelo)

Na sequência, o público acompanhou a exibição do longa-metragem Quatro Meninas, seguida de um bate-papo com Karen Suzane, diretora da obra. A cineasta compartilhou aspectos do processo criativo e da realização do seu primeiro longa, além de dialogar com o público. Encerrando a programação da noite, a cantora Stella apresentou um show musical enquanto acontecia a Feira do Mangaio Negro. Luciana Oliveira, diretora-geral e artística da EGBÉ, observou que esta edição é especial não só pela celebração dos 10 anos, mas também pelo movimento que vem ganhando força no cinema brasileiro.

“Quando a gente pensa que hoje está exibindo o filme de uma diretora mineira em seu primeiro longa e lembra que, alguns anos atrás, exibimos um curta dela em uma das nossas edições, isso se torna muito simbólico. Estamos vendo crescer a presença de mulheres negras no cinema brasileiro contemporâneo. Muitas cineastas da nossa geração estão realizando agora seus primeiros longas, e isso é fruto de muito trabalho, dedicação e compromisso com as narrativas que queremos construir”, avalia.

Marcando presença no evento, o produtor de conteúdo Lucas Gabriel, mais conhecido como Abiúdo, disse que vai levar esse momento para a vida. “A Lilian falou uma coisa que me tocou em muitos sentidos, que foi sobre fazer cinema por pessoas pretas. O cinema feito por pessoas pretas não precisa estar sempre nesse lugar da denúncia. Existe uma tendência de colocar esses cineastas em uma caixa, como se eles sempre precisassem produzir obras sobre racismo. Mas a gente também pode falar de amor, fazer comédia, ação, drama e muito mais”, comentou.

Homenagem destaca trajetória e legado no cinema negro

Criada na primeira edição da EGBÉ, em 2016, a honraria Troféu Severo D’Acelino reconhece pessoas que contribuíram para a construção e o fortalecimento dos cinemas negros no Brasil. A peça é uma obra do artista visual Antônio da Cruz e, diferentemente de premiações tradicionais, não possui caráter competitivo, funcionando como uma celebração coletiva que abriu caminhos para novas gerações do audiovisual.

Severo, responsável por entregar o troféu à pesquisadora, é fundador do movimento negro em Sergipe, Bahia e Alagoas e possui atuação marcante nos direitos humanos e nas artes, como poeta, dramaturgo, diretor teatral, coreógrafo, ator e pesquisador das culturas afro e indígena no estado. Por meio do teatro, denunciou o racismo em um período em que o país ainda negava sua existência e incentivou o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas.

Lilian Solá Santiago recebe o Troféu Severo D’Acelino, homenagem da 9ª EGBÉ à sua trajetória no cinema negro brasileiro (Foto: Lucas Rabelo)

Durante a cerimônia, ele pontuou a importância da homenagem. “Essa homenagem é o reconhecimento de uma trajetória. A Lilian hoje é uma agente multiplicadora, que tem ao redor dela uma comunidade inteira. O Brasil conhece o trabalho dela não só nas universidades, mas também nas comunidades. Quando uma personalidade dessa expressão vem a Sergipe para ser homenageada, isso é um presente não só para mim, mas para todo o estado.”

Para Lilian, o reconhecimento reforça a importância de valorizar artistas ainda em vida. “Espero que isso aconteça mais, porque precisa acontecer mais. Tanto eu quanto ele, e muitas outras pessoas que estão por aí, precisam ser honradas em vida, para que a gente tenha ainda mais força para continuar. Estamos na pista, seguimos sendo honrados e honrando quem veio antes da gente. E isso também vai honrar quem ainda vem depois.”

O momento ganhou ainda mais força com a performance da artista sergipana Michelle Pereira, inspirada em Mercedes Baptista, referência da dança afro-brasileira e personagem do documentário Balé de Pé no Chão – A Dança Afro de Mercedes Baptista. Ao comentar a apresentação, Lilian relacionou a trajetória da bailarina com seu próprio percurso. “Várias homenagens eu já recebi, mas essa foi a mais emocionantes de todas! Acho que eu nunca tinha entendido o trabalho da Mercedes em paralelo com o meu. Essa performance, quando ela começa naquela parte mais eurocêntrica, tentando ser bailarina, e dentro daquilo encontrar força para achar sua própria expressão, sinto que esse também é um caminho que eu faço.”

A artista sergipana Michelle Pereira realiza performance durante a cerimônia de abertura da 9ª EGBÉ (Foto: Lucas Rabelo)

Cinema negro e autoria feminina atravessam a programação

A autorrepresentação atravessou todo o primeiro dia da programação da Mostra, aparecendo de forma sutil nas falas das convidadas, nas obras exibidas e nas próprias escolhas que conduzem esta edição. A homenagem à pesquisadora Lilian Solá Santiago ganhou novos significados ao aproximar sua trajetória da de Mercedes Baptista, inspiração da performance apresentada na abertura. Essa perspectiva também se manifesta na condução da Mostra pela diretora-geral e artística, Luciana Oliveira, cineasta e pesquisadora que se dedica ao estudo da direção de mulheres negras.

Karen Suzane durante participação na abertura da 9ª EGBÉ, após exibição de Quatro meninas (Foto: Lucas Rabelo)

A reflexão também apareceu na fala da diretora Karen Suzane, que comentou como suas escolhas estéticas e narrativas refletem sua forma de olhar o mundo. Ao comentar o processo de criação do longa Quatro Meninas, a cineasta ressaltou que o filme dialoga diretamente com sua sensibilidade como diretora. “Esse filme reflete uma forma minha de ser, através da doçura e do encanto. Como diretora, gosto muito da composição dos planos, de organizar os elementos em cena de forma harmônica. Tento trazer essa precisão cênica para o que faço”, disse.

Para Luciana Oliveira, a construção desta edição também carrega um significado especial. Segundo ela, o trabalho de mulheres negras no audiovisual brasileiro amplia as possibilidades de representação no setor. “Tudo o que a gente faz enquanto mulheres negras que trabalham no audiovisual brasileiro é para tornar esse audiovisual mais plural, mais diverso e mais afetivo. É também uma forma de contribuir para as mudanças que o cenário precisa, em todos os seus níveis.”

Luciana também ressaltou a importância do encontro entre realizadoras e pesquisadoras promovido pela programação. Para ela, momentos como o debate após o filme de Karen Suzane fortalecem as trocas sobre processos criativos e direção no cinema. “Sou uma mulher negra, diretora e pesquisadora, e meu foco de estudo é justamente a direção de mulheres negras. Por isso, o debate após o filme foi muito valioso. Foi interessante perceber como cada uma de nós tem seus próprios métodos. Não somos iguais, mas temos muitas confluências, e isso é muito potente.”

Larissa Vieira, responsável pela identidade visual da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro (Foto: Lucas Rabelo)

Já para a artista visual Larissa Vieira, responsável pela identidade visual desta edição da Mostra, participar do projeto representa também um reencontro com sua própria trajetória dentro do evento. “Participo da EGBÉ desde a primeira edição. Comecei como expositora, apresentando meus desenhos e ilustrações. Então, quando chega esse momento em que também faço parte da criação dos materiais da Mostra, acho muito rico, porque mostra o quanto ela amadureceu ao longo dos anos e também levou com ela as pessoas que sempre estiveram nesse processo de construção.”

A 9ª EGBÉ segue com exibições, debates, atividades formativas e culturais até o dia 18 de abril, consolidando o evento como um dos principais espaços de difusão do cinema negro no país.