Painel da EGBÉ discute empresas vocacionadas e seu impacto no mercado audiovisual

O debate sobre empresas vocacionadas atravessou a programação do Mercado EGBÉ como uma das discussões centrais sobre os rumos do audiovisual brasileiro. Reunindo realizadores e agentes do setor, o painel colocou em foco não apenas a presença de pessoas negras nas produções, mas a disputa por estrutura, decisão e circulação de recursos dentro do mercado nacional.

A mesa contou com a participação de Tatiana Carvalho, presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), Luciana Oliveira, sócia da Rolimã Filmes, e Sidjonathas Araújo, cofundador da Floriô de Cinema, com mediação da consultora de mercado Cláudia Gonçalves.

Fotos: Mavi

Ao longo do encontro, o conceito de empresas vocacionadas foi apresentado de forma objetiva: trata-se de empresas com, no mínimo, 50% do quadro societário composto por pessoas negras com poder de decisão. No setor, o termo aparece como uma ferramenta que busca reorganizar o funcionamento do audiovisual a partir da estrutura econômica, e não apenas da representação nas telas ou nas equipes.

Nos últimos anos, a noção de empresas vocacionadas tem ganhado espaço em políticas públicas e debates do setor, ao apontar para a necessidade de ampliar o acesso de pessoas negras não só à criação, mas também ao controle das empresas, aos recursos e aos processos de negociação. Nesse contexto, a discussão deixa de se concentrar apenas na diversidade e passa a incidir sobre quem decide, quem produz e como o dinheiro circula no audiovisual brasileiro.

Tatiana Carvalho situou essa discussão no campo das ações afirmativas e da presença histórica de pessoas negras em diferentes áreas culturais, destacando que o conceito opera diretamente na dimensão econômica do audiovisual. “As empresas vocacionadas, geralmente, realizam um impacto no território em que estão, pois se preocupam com as pessoas que fazem parte daquele lugar, por estarem presentes e por estarem falando dos seus”, afirmou.

Esse modelo amplia a empregabilidade de pessoas negras e contribui para a circulação de renda nos territórios, ao mesmo tempo em que interfere na forma como essas histórias são produzidas e percebidas.

“Do ponto de vista ético e subjetivo, são empresas de altíssimo potencial de impacto socioeconômico em seus territórios para beneficiar ou para fazer circular lucro, dinheiro na mão de cada vez mais pessoas negras. E, para o imaginário coletivo, essas empresas têm uma postura mais propositiva de incidência no desfazimento de estereótipos racistas”, completou.

A discussão também evidenciou um movimento recente dentro do setor: a criação de empresas próprias por realizadores negros como caminho de permanência e autonomia. Luciana Oliveira destacou o movimento de mulheres negras que têm estruturado suas próprias empresas no audiovisual, apontando a abertura de novos CNPJs como forma de consolidar essa presença no setor. A partir da experiência da Rolimã Filmes, indicou um modo de produção que articula identidade, território e pluralidade de narrativas como eixo central dos projetos.

Na mesma direção, Sidjonathas Araújo abordou a criação da Floriô de Cinema como resposta à necessidade de reconhecimento profissional e de construção de um espaço próprio no audiovisual. Ao compartilhar a trajetória da produtora, destacou que pensar uma empresa vocacionada envolve também uma escolha de público e de compromisso.

A Floriô, segundo ele, busca dialogar diretamente com pessoas pretas, periféricas e oriundas de escolas públicas, articulando produção audiovisual, formação de público e construção de memória. Nesse sentido, a empresa não se organiza apenas como produtora de conteúdo; atua também como espaço de identificação e projeção de futuro.

A presença dessas empresas em um território impacta não apenas o tipo de obra que é produzida, mas também quem trabalha, quem acessa recursos e como o dinheiro circula. Ao reunir diferentes experiências, o painel evidenciou que a consolidação de empresas vocacionadas pode operar como uma estratégia concreta de enfrentamento das desigualdades históricas do audiovisual brasileiro.

O tema ganha força dentro do Mercado EGBÉ, que, ao promover o encontro entre realizadores, empresas e agentes da indústria, insere essa discussão em um ambiente de negociação e prática profissional, ampliando seu alcance para além do campo simbólico.