Mulheres negras no audiovisual brasileiro: por que esse debate está no centro da 9ª EGBÉ

A história do audiovisual brasileiro não pode ser contada sem as mulheres negras. Ainda assim, suas contribuições como realizadoras, pesquisadoras, curadoras e formuladoras de linguagem e pensamento seguem, muitas vezes, tratadas de forma periférica nas narrativas mais consolidadas sobre o cinema nacional. Ao dedicar sua edição de 2026 a esse debate, a 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro propõe um deslocamento de perspectiva: olhar para essas trajetórias não como exceção, mas como parte fundamental da construção do audiovisual brasileiro.

Ao longo de décadas, mulheres negras participaram da construção do audiovisual brasileiro em múltiplas frentes, como diretoras, roteiristas, produtoras, pesquisadoras, curadoras, professoras, montadoras, articuladoras de circuito e formuladoras de pensamento, mas suas trajetórias nem sempre ocuparam o centro da narrativa oficial sobre o cinema nacional.

Olhar para essas contribuições, portanto, não é um gesto de inclusão simbólica ou de correção superficial de ausência. É uma forma de recolocar em perspectiva quem tem produzido imagem, memória, linguagem e reflexão crítica no audiovisual brasileiro, muitas vezes a partir de experiências, territórios e modos de criação historicamente marginalizados.

Autoria, pensamento e linguagem

A contribuição das mulheres negras ao audiovisual brasileiro atravessa a história e o presente do campo. Esse percurso passa por nomes pioneiros como Adélia Sampaio, reconhecida como a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, e se desdobra em trajetórias fundamentais como as de Lilian Solá Santiago, Edileuza Penha de Souza, Viviane Ferreira, Janaína Oliveira, Yasmin Thayná, Juliana Vicente, Everlane Moraes, Camila de Moraes, entre tantas outras que vêm produzindo filmes, pensamento, pesquisa, formação e reorganização de circuitos no audiovisual brasileiro.

Essas mulheres vêm construindo outros modos de fazer cinema e de pensar a imagem, muitas vezes em confronto direto com estruturas historicamente excludentes do campo audiovisual. Em muitos desses percursos, o audiovisual aparece articulado a temas como memória, oralidade, território, afeto, ancestralidade, pedagogia, arquivo, cotidiano, espiritualidade, corpo e futuro. Trata-se também de um campo de criação que tem proposto outras formas de enquadrar o mundo, tensionando estereótipos, deslocando hierarquias e ampliando os horizontes do cinema brasileiro contemporâneo.

Mulheres negras e a construção do pensamento audiovisual

Um dos aspectos mais importantes desse debate é que ele não se restringe à realização de filmes. A contribuição das mulheres negras ao audiovisual brasileiro também passa por quem pesquisa, ensina, organiza, preserva, programa, escreve e media cinema. Isso significa reconhecer o papel de pesquisadoras, críticas, curadoras e educadoras que têm contribuído para consolidar o audiovisual negro como campo de conhecimento, memória e reflexão.

Nesse sentido, nomes como Edileuza Penha de Souza, Janaína Oliveira, Kênia Freitas, Tatiana Carvalho, e tantas outras pesquisadoras, curadoras e intelectuais negras que vêm atuando em universidades, festivais, mostras, cineclubes e espaços de formação, têm sido fundamentais para formular conceitos, revisar histórias, tensionar apagamentos e abrir caminhos para novas leituras sobre o cinema brasileiro.

Essa dimensão é central para a 9ª EGBÉ. A mostra compreende o audiovisual não apenas como produção artística, mas também como território de pensamento, elaboração crítica e formação política. Por isso, a programação da edição de 2026 articula exibições, mesas, sessões comentadas, homenagens e atividades formativas que ajudam a ampliar esse debate para além da tela.

Lilian Solá Santiago e a memória negra como linguagem de cinema

A escolha de Lilian Solá Santiago como homenageada desta edição se insere diretamente nesse horizonte. Cineasta, roteirista, produtora, pesquisadora e professora, Lilian construiu uma trajetória profundamente comprometida com a memória negra, a escuta, a oralidade e a preservação de legados historicamente negligenciados pelo audiovisual brasileiro. Sua obra, marcada pelo documentário, ajuda a compreender o cinema como linguagem de registro, transmissão e restituição de presença histórica.

Além disso, ela ocupa um lugar importante na história do cinema negro brasileiro contemporâneo ao integrar o contexto do Dogma Feijoada, movimento que, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, ajudou a formular publicamente a necessidade de um cinema negro brasileiro comprometido com autoria, protagonismo e disputa de representação. Sua presença nesse contexto também ajuda a lembrar que mulheres negras estiveram, e seguem estando, na formulação histórica do cinema negro brasileiro, ainda que nem sempre tenham recebido o mesmo grau de visibilidade nas narrativas posteriores sobre esse processo.

Uma escolha curatorial e política

Ao dedicar sua edição de 2026 às mulheres negras no audiovisual brasileiro, a EGBÉ se insere em uma discussão que permanece urgente no cinema nacional: a distância entre a contribuição efetiva dessas mulheres para o campo audiovisual e o reconhecimento que historicamente lhes foi concedido.

A pesquisa, crítica, curadoria, formação, realização e a própria construção de circuitos de circulação e memória mostram que as mulheres negras vêm atuando de forma decisiva na transformação do audiovisual brasileiro, mesmo em um setor ainda marcado por desigualdades estruturais de raça e gênero. Colocar essas trajetórias no centro, portanto, não é apenas um gesto de valorização: é também uma forma de rever a história, disputar leitura crítica e reposicionar o debate sobre autoria, linguagem e permanência no cinema brasileiro.