EGBÉ reúne Mostra Oficial, internacional e sessões especiais em panorama do cinema negro contemporâneo

A 9ª edição da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro, realizada de 11 a 18 de abril de 2026, em Aracaju (SE), estrutura sua programação a partir de diferentes mostras que, juntas, compõem um panorama amplo do cinema negro contemporâneo, articulando produções brasileiras, diásporas e trajetórias fundamentais da história do audiovisual.

Ao longo da semana, o público poderá acompanhar a Mostra Oficial, a Mostra Internacional dedicada à cineasta cubana Sara Gómez, a mostra especial em homenagem a Lilian Solá Santiago, a Mostrinha Cineclube Zoinho, voltada ao público infantojuvenil e o Circuito Itinerante Borboletas Filmes. Cada uma dessas frentes opera como um eixo curatorial próprio, ao mesmo tempo em que dialoga com o tema da edição: a contribuição das mulheres negras no audiovisual brasileiro.

Mostra Oficial: cinema negro contemporâneo em múltiplas direções

Com 20 filmes selecionados entre 174 obras inscritas de todo o país, a Mostra Oficial apresenta um recorte consistente do cinema negro brasileiro recente, reunindo produções de 11 estados. Organizada em cinco sessões temáticas, a seleção articula questões como trabalho, memória, afeto, espiritualidade e futuridade, evidenciando um campo em expansão tanto estética quanto politicamente.

Na sessão “Cotidianos em Estado de Invenção”, filmes como Praia das Artistas (dir. Rosy Nascimento) e Samuel foi trabalhar (dir. Janderson Felipe e Lucas Litrento) partem de rotinas atravessadas por exaustão e precarização para produzir deslocamentos poéticos. Em Redestina (dir. Mayara Mascarenhas), a reinvenção do destino emerge como gesto radical, enquanto Comigo Ninguém Pode (dir. Madlene Delfino) tensiona os limites entre arte, maternidade e sobrevivência.

Já em “Corpo, Memória e Reconstrução”, o cinema se constrói como prática de reinscrição de histórias e saberes. Da Pele Prata (dir. Safira Moreira) articula arte, espiritualidade e identidade a partir da criação de joias ligadas aos orixás, enquanto Acupe (dir. Rafa Martins) observa festas populares como territórios de memória e disputa. Em O Sonho de Anu (dir. Vanessa Kypá), sonho e ancestralidade operam como tecnologias narrativas, ao lado de Vermelho de Bolinhas (dir. Renata Fortes e Joedson Kelvin), que revisita a construção simbólica de uma jovem marcada pela violência no interior do Ceará.

A sessão “Amor é Ação” desloca o afeto para o campo político. Em Calmon (dir. Joyce Prado), relações entre gerações são atravessadas por ausência e deslocamento, em um filme que ganha novas camadas de leitura diante do recente falecimento da diretora. Já Em busca da riqueza (quase) esquecida (dir. Naira Soares) constrói um gesto de memória quilombola a partir da relação entre avó e neta, enquanto Donas da Cultura Popular – Madá (dir. Davi Cavalcante) aproxima o público do cotidiano de uma mestra da cultura popular sergipana. Em A minha saudade num retrato eu guardei (dir. Mony Mendonça e Julie Santos), conflitos familiares e reconciliação atravessam gerações.

Em “Novas Encruzilhadas”, os filmes enfrentam os impasses do presente. Entre nós, vive o rio (dir. Day Rodrigues) articula espiritualidade e crise ecológica, enquanto Rapsódia em Azul (dir. Marina Barancelli) tensiona racismo e exotização no campo da dança. Já E seu corpo é belo (dir. Yuri Costa) revisita o universo das festas black dos anos 1970 em uma narrativa que cruza musical, romance e terror, ao lado de Ainda escuto o céu embaixo d’água (dir. Alice Lovelace e coletivo), que atravessa desejo, sonho e experiência travesti.

A sessão “Tecnologias Pretas” propõe o conhecimento negro como ferramenta de invenção de futuro. Em Oriranti (dir. Petyta Reis), uma neurocientista confronta traumas raciais ao acessar suas próprias memórias, enquanto Sertão 2138 (dir. Deuilton B Junior) projeta um futuro distópico atravessado por escolhas e deslocamentos. Em A Sombra de Um Futuro (dir. Gabriel Borges), sonho e obsessão conduzem uma investigação sobre imagem e ausência, enquanto Não é exatamente amor (dir. Janaína Santos Vasconcelos) experimenta o espaço urbano a partir de imagens e deslocamentos sensoriais.

As sessões são acompanhadas de debates com realizadores e convidados, ampliando a experiência para além da exibição e consolidando a mostra como espaço de escuta, troca e construção de pensamento.

Mostra Internacional: Sara Gómez e o cinema como gesto político

A Mostra Internacional desta edição é dedicada à cineasta cubana Sara Gómez, uma das vozes fundamentais do cinema latino-americano e pioneira na articulação entre linguagem cinematográfica e crítica social.

A programação reúne o longa De Cierta Manera (1977), que acompanha a relação entre uma professora e um operário em meio às transformações sociais da Revolução Cubana, tensionando gênero, classe e moralidade. O filme dialoga diretamente com os documentários Guanabacoa: Crónica de mi familia (1966) e Mi aporte (1969), nos quais Gómez investiga memória familiar e o papel das mulheres na sociedade cubana.

Ao articular experiência pessoal, análise política e experimentação formal, sua obra estabelece conexões com o cinema negro contemporâneo, especialmente no modo como constrói imagens a partir de território, conflito e história.

Mostra Lilian Solá Santiago: memória, linguagem e trajetória

Homenageada da 9ª EGBÉ, a cineasta Lilian Solá Santiago tem sua obra apresentada em sessão especial que reúne dois filmes centrais de sua trajetória: Eu tenho a palavra (2011), no qual investiga as permanências das línguas africanas no Brasil a partir da oralidade, e Balé de Pé no Chão – A Dança Afro de Mercedes Baptista (2006), registro fundamental da trajetória da bailarina e coreógrafa. Em ambos, o cinema se afirma como ferramenta de preservação, escuta e elaboração histórica. A sessão é seguida de bate-papo com a diretora, ampliando o diálogo com o público.

Mostrinha Cineclube Zoinho: formação de público e imaginação

Voltada ao público infantil, a Mostrinha Cineclube Zoinho reúne produções em animação que articulam imaginação, território e cultura brasileira. Entre os filmes exibidos estão Bia Desenha (dir. Neco Tabosa), que acompanha o processo criativo de uma criança a partir da observação do cotidiano, Quintal (dir. Mariana Netto), inspirado no universo poético de Manoel de Barros, e Contos Mirabolantes – O Olho do Mapinguari (dir. Andrei Miralha e Petronio Medeiros), que revisita narrativas amazônicas a partir da animação.

Ao propor experiências sensoriais e narrativas voltadas às infâncias, a sessão integra a dimensão formativa da EGBÉ e reforça a importância da construção de vínculos entre cinema e público desde cedo.

Sessões especiais: abertura e encerramento

A programação de filmes da 9ª EGBÉ também inclui a sessão de abertura da mostra, no dia 11 de abril, com a exibição do longa convidado Quatro meninas (2025), dirigido por Karen Suzane. Após a sessão, o público poderá acompanhar um bate-papo com a diretora, ampliando o diálogo em torno da obra e abrindo a programação da edição com um filme recente do cinema brasileiro.

No encerramento, a programação recebe o Circuito Itinerante da distribuidora Borboleta Filmes, composta pelos curtas A Culpa é da Mãe, de Luciana Oliveira e Manoela Veloso Passos; A Um Gole da Eternidade, de Paulo Ricardo de Moraes e Camila de Moraes; e Quarta-Feira, de João Pedro Prado e Bárbara Santos. A sessão integra a noite final da mostra e propõe um fechamento atravessado por diferentes formas e abordagens do curta-metragem contemporâneo.

Foto: Still do filme “A minha saudade num retrato eu guardei”, dir. Mony Mendonça e Julie Santos