Mercado EGBÉ reúne produtores de diferentes regiões do país e fortalece audiovisual negro em Sergipe

Produtores de diferentes regiões do Brasil se encontram em Sergipe para participar do Mercado EGBÉ, iniciativa que busca fortalecer negócios e ampliar as possibilidades de circulação de obras de realizadores negros. Integrado à programação da 9ª Mostra, o evento propõe a descentralização dos espaços de mercado do audiovisual, historicamente concentrados no eixo sudeste. Criado com essa proposta, o Mercado EGBÉ passa a integrar e fortalecer o circuito de mercados do setor no país.

Ao colocar Sergipe como ponto central da rodada de negócios, o mercado amplia a visibilidade de histórias e realizadores locais, que têm muitas vezes menor circulação por estarem fora dos grandes centros do audiovisual. A realização do evento na região representa um movimento importante, já que por muitos anos profissionais do audiovisual sergipano precisaram se deslocar para outros estados para participar de encontros e negociações do setor. Além disso, o mercado soma-se a iniciativas já consolidadas, como o Nordeste Lab.

Luciana Oliveira, diretora-geral e artística da EGBÉ, afirma que o evento acontece em um momento importante para o audiovisual sergipano. “Para a gente, é muito interessante realizar o Mercado EGBÉ neste momento porque vários projetos sergipanos estão tendo uma circulação muito interessante. Há projetos sendo internacionalizados e ganhando novos voos. Receber aqui projetos de várias regiões do país, de realizadores negros e negras que saem do eixo sudeste para vir ao Mercado EGBÉ é muito significativo para a gente”, afirma.

Luciana observa que vários projetos do estado têm alcançado uma circulação significativa, inclusive em circuitos internacionais (Foto: Mavi Retrata)

Sergipe como ponto de encontro

Entre os participantes está Beto Oliveira, de São Paulo, representante do filme Tudo que eu poderia te deixar. Embora esteja acostumado a participar de eventos e mercados audiovisuais em seu estado, ele decidiu vir a Sergipe pela proposta do evento. “Vim por ser o primeiro mercado legitimamente preto. Aqui a gente vai estar discutindo projetos pretos, apresentando projetos pretos e fomentando essa economia dessa comunidade preta. Por isso fiz questão de vir para cá, de São Paulo. Nem sei se as coisas vão acontecer para os meus projetos, mas estou muito feliz e honrado de estar aqui”, conta.

O cineasta Douglas Santos, que é baiano, mas construiu sua trajetória profissional em Sergipe, destaca a importância da descentralização no setor audiovisual. Segundo ele, a presença de eventos como esse no estado amplia o acesso de realizadores às oportunidades de mercado. “Me formei aqui, trabalho aqui e tenho uma produtora aqui. É muito importante esse evento acontecer em Sergipe por vários fatores. Um deles é o processo de centralização no eixo Rio–São Paulo, mas também a necessidade de descentralização dentro do próprio Nordeste”, diz. Ele lembra que, em geral, as rodadas de negócio acontecem fora do estado, o que acaba dificultando a participação de muitos profissionais.

”Quando o evento acontece em Sergipe, no entanto, o acesso se torna mais possível e fortalece as trocas dentro da própria região”, diz Douglas (Foto: Lucas Rabelo)

“Já participei de algumas rodadas, mas sempre em outros estados. Quando isso acontece aqui, traz benefícios em vários sentidos. Primeiro, por ser acolhido por uma comunidade que eu já conheço e dentro de um evento que também é muito importante. Além disso, há a facilidade de estar presente aqui. A presença do nosso corpo nessas trocas é muito importante. Muitas vezes a dificuldade de acessar os eventos do eixo Rio–São Paulo passa por transporte e hospedagem. Aqui conseguimos estar presentes de forma muito mais fácil e trazer essas trocas para cá”, conclui.

Conexões

Além de conectar realizadores e players por meio de reuniões formais, o evento também cria espaços informais de troca entre os participantes. Nos intervalos, nos cafés ou nos corredores do auditório, realizadores conversam entre si, compartilham experiências e muitas vezes começam a imaginar novas parcerias ou projetos. Esses encontros também fazem parte da dinâmica do mercado e contribuem para fortalecer a rede de produção audiovisual.

Maryza Macedo, representante do Globoplay, destacou a importância dessas conexões que surgem ao longo do evento. “É um momento de conexão e de network muito grande. Às vezes não é nem aquele projeto que vai acontecer imediatamente, mas, a partir do momento em que você conhece aquela pessoa, aquele roteirista ou diretor, já começa a pensar em outras ideias que poderiam conectá-lo. Então é um momento muito bom de troca e de conexão”, afirmou.

O Mercado EGBÉ fortalece conexões ao ampliar os espaços de negociação e encontro entre realizadores, produtores e empresas do setor audiovisual (Foto: Lucas Rabelo)

Esse ambiente colaborativo reforça o papel do mercado como um espaço de articulação que vai além das rodadas formais de negócios. A aproximação entre realizadores, produtores e players amplia as possibilidades de circulação dos projetos e contribui para o surgimento de novas articulações e futuras iniciativas no audiovisual.

Políticas de fomento 

A realização do Mercado EGBÉ também é resultado de políticas públicas de fomento à cultura. O evento integra a programação da 9ª EGBÉ, contemplada nos editais da Política Nacional Aldir Blanc em Sergipe, com apoio do Governo do Estado, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap), via PNAB, iniciativa do Ministério da Cultura do Governo Federal.

Para João Brazil, produtor executivo da EGBÉ, iniciativas como o mercado só se tornam possíveis a partir do investimento público em cultura. “Se não fossem as políticas públicas e o investimento público, especialmente do Governo Federal por meio da PNAB, não seria possível viabilizar uma ação como essa. É esse fomento que cria a possibilidade de a gente realizar um mercado aqui em Sergipe e oferecer aos realizadores e projetos locais a oportunidade de dialogar diretamente com empresas e players do audiovisual”, afirma.

“Por muitos anos, realizadores sergipanos foram para fora. Então a gente quis fazer isso aqui, para que esse mercado também circule as obras do audiovisual sergipano”, disse João Brazil (Foto: Pritty Reis)

A consultora de pitching Claudia Gonçalves observa que o evento ocorre em um momento de expansão da produção audiovisual no Brasil. “Com a Lei Paulo Gustavo houve um grande investimento, talvez um dos maiores que já tivemos na região. E com isso muitos filmes estão sendo produzidos. Esses filmes precisam ser exibidos, seja nas plataformas, nos cinemas ou em outros espaços de circulação. O mercado surge justamente para mostrar o que está sendo produzido, tanto em Sergipe quanto em outras regiões do Brasil, e promover esse diálogo direto com produtores, distribuidores e players”, afirma.