No último sábado, 19 de julho, o Centro Comunitário de Brejão dos Negros, em Brejo Grande, Sergipe, tornou-se palco de teatro, sala de cinema e um espaço livre para roda de conversa após toda essa programação. Quase às margens do Rio São Francisco, o território, marcado pela preservação da ancestralidade e cultura negra, recebeu o Cineclube Candeeiro, dando continuidade à Rota dos Quilombos, circuito cineclubista com curadoria especial da EGBÉ — Mostra de Cinema Negro. Desta vez, a programação aconteceu em parceria com o Coletivo Dandaras e a Associação Santa Cruz, destacando o papel das mulheres negras na organização do território. O projeto já passou pela Mussuca, em Laranjeiras, e seguirá para a comunidade de Aguada, também em Sergipe.
Antes de o público se voltar ao telão, o grupo de teatro infantil Kekero Wá (Pequenas Raízes), coordenado por uma das lideranças do Quilombo, membro do grupo Dandaras, catequista e professora, Claudeane Bispo, apresentou com a leveza própria das crianças uma peça que explorava o que é ser quilombola, misturando história local, diálogos curtos, além de capoeira e passos de dança afro-brasileiros. “Sou catequista da Igreja Católica, mas isso não causa impedimento para apresentar os ensinamentos do candomblé. Os adultos já tinham um conhecimento meio defasado, então vi a necessidade de ensinar às crianças para que elas não apenas conhecessem, mas soubessem contar suas próprias histórias”, enfatiza Claudeane, ressaltando que é preciso haver respeito à cultura ancestral por fazer parte da própria cultura quilombola.
A peça foi inspirada em situações que os moradores de Brejão dos Negros passavam diante da necessidade de comprar passagens em rodoviárias. “Lá é terra de macumbeiro”, ouviam dos motoristas. De acordo com Claudeane, que também escreveu o roteiro junto à filha, o passado acabou ficando reprimido devido ao preconceito. “Agora, depois dessa repressão, estamos voltando com mais força”, finaliza.





Cinema como espelho
Quando a noite se fechou sobre Brejão dos Negros, foi a vez do telão iluminar o público, ressaltando a potência do cinema como ferramenta de fortalecimento cultural, protagonismo negro e articulação de base, além de levar entretenimento em que crianças negras, por exemplo, possam se ver representadas no telão.
No filme Ewé de Òsányìn: O Segredo das Folhas, de Pâmela Peregrino, exibido durante a Mostrinha Vunji, voltada para o público infantil, uma criança que nasce com folhas em seu corpo foge para a mata depois de ser discriminada pelos colegas de escola. Durante essa aventura, encontros com seres encantados de tradições indígenas e negras o levam a Òsányìn, o Orisà das folhas, que apresenta o poder das plantas e a importância da preservação ambiental. O filme conversa diretamente com um dos objetivos do Quilombo Brejão dos Grandes: a proteção do seu entorno, ameaçado por latifúndios e pela urbanização.
“Aqui nós plantamos ao nosso modo, com cuidado, respeitando o tempo, sempre em torno do amor e do apreço à terra”, destacou Antônio Bomfim, orientador espiritual e uma das lideranças quilombolas presentes no evento.
“Enfrentamos vários problemas, mas damos continuidade ao nosso trabalho. Nos sentimos como guardiãs da mata, da floresta, apagamos fogo, impedimos que viveiros de camarão sejam construídos dentro do nosso território”, fala Laudiana Batista dos Santos, conhecida como Lau, dentro do Coletivo Dandaras. Moradora do quilombo há 20 anos, ela conta que aprendeu a reconhecer e a valorizar a beleza da mata quando passou a residir no território.












Quando mulheres adormecidas acordam, montanhas se movem
Formado por 12 mulheres envolvidas fortemente com a comunidade, o Coletivo Dandaras trabalha com turismo de base comunitária em Brejão dos Negros. Além da apresentação de trilhas e artesanatos, a parte da religiosidade se mostra forte, já que tudo está em volta do terreiro. “Esse turismo de base comunitária foi o que reviveu e despertou novamente o interesse nas nossas tradições e religião, nos fortalecendo mais”, comenta Angela Maria Viana Morato.
Durante a roda de conversa, os filmes voltados para a religiosidade afro-brasileira, aliás, proporcionaram uma grande discussão. “Tivemos um debate muito forte, com muita gente do axé. Notamos que esses filmes tocaram bastante o público. Conversamos sobre intolerância religiosa e o papel da religião na sociedade. Foi bem bacana observar essas discussões”, relembra João Brazil, do Cineclube Candeeiro.
João Brazil destaca, ainda, a importância de atividades cineclubistas descentralizar as exibições dos espaços urbanos. “Um dos nossos papéis é levar filmes sergipanos para que sergipanos possam assistir, principalmente de realizadores negros e negras. Tornar possível o acesso a filmes que perpassam por temáticas parecidas com as que essas comunidades vivem é muito gratificante”, ressalta.
A Rota dos Quilombos é uma ação do Cineclube Candeeiro, que desde 2022 atua na exibição de filmes fora do circuito comercial, promovendo a formação de novos públicos e o acesso a narrativas afro-brasileiras em comunidades, escolas e espaços populares. A cada parada, o projeto mobiliza comunidades, ativa memórias e consolida espaços de encontro entre audiovisual, território e identidade.





