O EGBÉ LAB é uma iniciativa voltada ao fortalecimento do cinema negro sergipano que funciona como um laboratório de desenvolvimento audiovisual. O projeto acompanha o desenvolvimento de um longa-metragem e um telefilme contemplados pela Lei Paulo Gustavo em Sergipe, reunindo ações de formação e criação. A proposta promove encontros entre cineastas, roteiristas e consultoras, em um espaço de troca de experiências e aprimoramento criativo, contribuindo para o desenvolvimento de roteiros e planos de direção e ampliando as possibilidades de circulação dessas produções.
Dividido em três etapas, o laboratório combina formação, criação e desenvolvimento de projetos audiovisuais. A primeira etapa é dedicada ao desenvolvimento teórico e narrativo das obras, com foco nas estruturas dramáticas e na construção dos roteiros. Na segunda, as participantes passam por uma imersão prática, com consultorias de roteiro e direção, exercícios de escrita e aprofundamento das propostas audiovisuais. Já a terceira etapa, que ainda será realizada, é voltada à consolidação dos projetos, incluindo a reformulação de argumentos, preparação de materiais de apresentação e treinamento para pitching, culminando em uma apresentação pública das obras desenvolvidas ao longo do processo.
Entre os projetos acompanhados está o telefilme Samba de Celebração, dirigido pela cineasta sergipana Luciana Oliveira. A obra tem como ponto de partida a tradição da Meladinha, celebração realizada na comunidade quilombola da Mussuca, em Laranjeiras (SE). Na trama, a personagem Alice precisa decidir se realizará ou não a celebração tradicional de seu quilombo, realizada quinze dias após o nascimento de uma criança. A partir desse dilema, a narrativa aborda temas como maternidade, pertencimento, memória e continuidade cultural, tendo como pano de fundo uma das manifestações mais emblemáticas da Mussuca.
Consultorias contribuíram para o amadurecimento de Samba de Celebração
As consultorias, que integram a segunda etapa do EGBÉ LAB, são voltadas à imersão prática dos projetos. Durante esse período, as obras participantes contaram com o acompanhamento de Xenia Rivery e Everlane Moraes, profissionais formadas pela Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba (EICTV). Os encontros abordaram questões relacionadas ao roteiro, à direção e à linguagem audiovisual. No caso de Samba de Celebração, essa etapa contribuiu para revisar escolhas criativas e aprofundar aspectos centrais da obra.
Também contribuíram para que a equipe identificasse potencialidades da obra, reconhecesse aspectos que ainda precisavam de maior desenvolvimento e orientasse decisões para as próximas etapas do projeto. O processo favoreceu a revisão de elementos estruturais do roteiro e o aprofundamento das escolhas estéticas e dramatúrgicas, fortalecendo a coerência entre a narrativa, os temas abordados e o universo retratado pelo filme.

A diretora Luciana Oliveira destacou a importância da rede de apoio criada durante o laboratório. “O trabalho da direção é solitário e às vezes doloroso pelas crises existenciais e artísticas que vivemos, mas saber que existe uma rede solidária, comprometida com um filme, com aquela sua ideia, faz toda a diferença. Ter um espaço como esse, com profissionais que se dedicaram a olhar os nossos trabalhos e realizar contribuições tão generosas e críticas para torná-los ainda melhores, foi muito importante”, avalia.
Da tradição às telas do cinema
Há cerca de 10 anos, pouco antes de descobrir a sua gravidez, Luciana, que estava sempre pela Mussuca, foi pela primeira vez à Meladinha. Um tanto tímida, ela não entrou na roda para sambar, mas perguntou para sua ancestral sobre a existência da festa que celebrava o nascimento de uma criança. Sua tia-avó, Antonieta, lhe apresentou outra perspectiva sobre a tradição. Mais do que uma festa, existia a chamada “Visita”, prática em que mulheres da comunidade se reuniam para apoiar mães recém-paridas, ajudando nos cuidados com a casa, a alimentação e a criança.
“Foi quando percebi que havia duas impressões sobre celebrar o nascimento de uma criança na Mussuca e quis compreender melhor as diferenças entre elas”, conta a diretora. A partir daquela descoberta, Luciana, que gosta de compreender como as coisas funcionam, passou a investigar as mudanças ocorridas na celebração ao longo das gerações e a refletir sobre os sentidos de pertencimento, memória e continuidade cultural presentes no território quilombola.
A investigação acabou atravessando também sua trajetória como pesquisadora. Formada entre a prática audiovisual e a pesquisa acadêmica, Luciana encontrou nesse processo uma forma de aprofundar reflexões sobre memória, identidade e pertencimento. A atenção aos relatos das mulheres da comunidade se tornou parte fundamental da construção do filme. O resultado é uma obra que transita entre documentário e ficção para refletir sobre maternidade, continuidade cultural e memória coletiva, registrando histórias, saberes e experiências preservadas pela comunidade quilombola.

Mais do que retratar uma celebração tradicional, Samba de Celebração busca documentar as vozes e as memórias das mulheres que mantêm viva essa herança cultural. “O documentário é um documento em movimento. Acho que é valioso para marcar um tempo, que aqueles fatos existiram e como existiram. O cinema não tem o poder de salvar nenhuma tradição, mas acredito que, com esse filme, poderemos documentar o pensamento e a memória de mulheres importantes que atualmente guardam essas tradições no território”, conclui a diretora.
Ao acompanhar projetos como Samba de Celebração, o EGBÉ LAB cria um espaço de escuta, troca e aprofundamento criativo, permitindo que obras em desenvolvimento amadureçam suas propostas narrativas e estéticas. A iniciativa contribui para que cineastas negras desenvolvam seus projetos em diálogo com profissionais experientes, fortalecendo a construção de histórias conectadas aos territórios, memórias e experiências afro-sergipanas.





