O roteiro é uma das bases para a construção do cinema. Antes de o filme chegar às telas, diferentes profissionais trabalham na construção da narrativa. Mais do que uma estrutura técnica, o roteiro é atravessado pela escrita e pela criatividade. É nesse território do desenvolvimento narrativo que atua Xenia Rivery, responsável pela consultoria de roteiro no EGBÉ LAB — Fortalecendo o Cinema Negro Sergipano.
Estruturado a partir de metodologias do cinema negro brasileiro e de diálogos com o cinema afrodiaspórico, o EGBÉ LAB se constitui como um espaço de encontro entre territórios da diáspora. O projeto reúne duas profissionais formadas pela Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), em Cuba, e cineastas negras com projetos em desenvolvimento em Sergipe. Entre os nomes convidados está a roteirista, consultora e professora Xenia Rivery, cuja trajetória atravessa diferentes experiências de criação audiovisual na América Latina.
Na primeira etapa de consultoria da EGBÉ LAB, a diretora Luciana Oliveira e os roteiristas Jéssica Maria Araújo e Victor de Rosa participaram de encontros com Xenia Rivery para tratar sobre o roteiro do telefilme Samba de Celebração, obra que se encontra em desenvolvimento. Após a consultoria inicial, a equipe também realizou uma reunião presencial para aprofundar discussões sobre narrativa, personagens e os caminhos criativos do projeto.
A trajetória de Xenia Rivery
Com formação em Dramaturgia e Roteiro pela Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), em Cuba, Xenia construiu uma trajetória marcada pelo acompanhamento de projetos audiovisuais, consultorias criativas e circulação em espaços ligados ao cinema latino-americano e afrodiaspórico. Durante sua formação, foi aluna de Gabriel García Márquez, Senel Paz e Costa-Gavras, referências fundamentais para o pensamento narrativo e cinematográfico contemporâneo.
Sua atuação reúne roteiros de filmes premiados internacionalmente, como Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, exibido no Festival de Cinema de Berlim; Perejil; Valeria Descalza e Tres Veces Dos. Xenia também atuou como consultora em obras de ficção e documentário reconhecidas em festivais internacionais, como A Natureza das Coisas Invisíveis, A Media Voz e La Pecera.
Em sua trajetória, o desenvolvimento de roteiro aparece como espaço de escuta, investigação narrativa e elaboração coletiva. Ao acompanhar filmes em construção, Xenia atua diretamente nas formas como cada projeto encontra sua própria voz estética e política, articulando escrita, território e imagem.
“Tenho interesse em compreender a mente dos autores, abrindo-me a outras perspectivas narrativas, estéticas e ideológicas que enriqueçam meu conhecimento, as trocas proporcionadas por essa forma de colaboração. Sempre aprendo muito com meus mentorados, tanto como roteirista quanto como pessoa”, afirma.
Para ela, os processos de desenvolvimento também estão ligados à possibilidade de descoberta e transformação dentro da própria criação. “Procuro não impor minha visão ou uma técnica específica. Me interessam projetos que me surpreendam, que tenham originalidade e autores capazes de desenvolver ideias a partir das trocas realizadas durante as consultorias”, explica.
Além da atuação como roteirista e consultora, a relação de Xenia com a formação audiovisual atravessa toda a sua trajetória profissional. Ela foi coordenadora e chefe da Cátedra de Roteiro da EICTV por treze anos e coordenou a Oficina Internacional de Roteiro do Festival de Cinema de Havana. Ao longo dos anos, elaborou e ministrou oficinas em países como Brasil, Colômbia, Porto Rico, Panamá, Cuba e República Dominicana, consolidando uma atuação marcada pelas trocas latino-americanas e pelos processos coletivos de criação.
Trocas latino-americanas e processos de criação no EGBÉ LAB
Além de se conectar ao desenvolvimento do telefilme Samba de Celebração, dirigido por Luciana Oliveira, a experiência de Xenia Rivery também atravessa o longa-metragem Abya Yala: Raízes do Futuro, dirigido por Carolen Meneses. As duas obras são acompanhadas pelo EGBÉ LAB e desenvolvidas com recursos da Lei Paulo Gustavo. Além da consultoria de roteiro conduzida por Xenia, os projetos também contarão com consultoria de direção da cineasta baiana Everlane Moraes, que, assim como a roteirista cubana, é formada pela Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV), em Cuba.
Ao refletir sobre a relação entre território, memória e linguagem audiovisual, Xenia destaca que toda criação parte das marcas subjetivas e coletivas que atravessam quem escreve. “Cada criador carrega dentro de si os elementos que o moldam. Essa subjetividade é construída a partir das experiências, do contexto cultural e social e da memória. É a partir dessa expressão pessoal que o criador constrói um caminho moral e estético que depois se verifica na obra audiovisual”, comenta.

Para a roteirista, um dos aspectos mais marcantes dos projetos acompanhados no laboratório é justamente a consciência política e estética presente nas narrativas desenvolvidas. “Me chamou atenção a autoconsciência desses criadores como contadores de suas próprias histórias, defensores de certos valores e responsáveis por um espaço de fala e representação ainda insuficiente no audiovisual”, destaca.
Luciana Oliveira, diretora do telefilme Samba de Celebração, falou sobre a experiência de consultoria com Xenia. Para a diretora, a etapa foi fundamental para o amadurecimento do filme. “Poder ter esse espaço de criação e contribuição é maravilhoso. Para mim, o olhar dela foi muito importante, tanto por ser uma referência, quanto porque alguns dos meus estudos de direção para este filme têm como base o cinema realizado em Cuba. As contribuições de Xenia foram fundamentais para seguirmos amadurecendo a narrativa”, afirma.
A presença de Xenia Rivery no EGBÉ LAB amplia as conexões entre Sergipe e redes latino-americanas de criação audiovisual, fortalecendo processos de formação e desenvolvimento comprometidos com experiências negras e afrodiaspóricas. Ao reunir consultoria, escuta e intercâmbio entre realizadores, o laboratório consolida um espaço de criação voltado à construção de novas imagens e narrativas no cinema sergipano contemporâneo.





