Nesta quinta (16), a programação da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro foi marcada por emoção, alegria e sala cheia. Durante a tarde, foi a vez da criançada participar da sessão do Cineclube Zoinho. A atividade aproximou os pequenos da mostra e do cinema, fazendo com que se sentissem parte do evento. A sessão reuniu estudantes da EMEF Alcebíades Melo Vilas Boas, além de pais, responsáveis e outros membros da comunidade, que lotaram o espaço para acompanhar as exibições.
As crianças contaram ainda com a presença do personagem Zoinho, interpretado pela cineasta baiana Larissa Fulana de Tal, que de forma lúdica interagiu com o público e ajudou a criar um ambiente acolhedor e divertido. Larissa é diretora do curta-metragem Lápis de Cor, obra que discute o racismo na infância a partir da ideia do “lápis cor de pele”. O filme problematiza a noção, muito difundida, de que a cor de pele seria um tom claro associado à pele branca, trazendo essa reflexão a partir do olhar das crianças.

Larissa destacou ainda a importância da infância em sua trajetória como artista e pesquisadora. Segundo ela, revisitar memórias e experiências desse período tem sido fundamental em seu processo criativo. “A infância é o terreno que se pisa a vida toda. Eu sou uma cineasta que não tem muitas memórias da infância, por conta de um trauma e de um luto que vivi. Hoje estou nesse momento de olhar para a minha trajetória e também para a importância da memória infantil”, afirmou.
Já à noite, a programação reuniu filmes que atravessam temas como amor, relações familiares e afeto. O público acompanhou as exibições de Calmon, de Joyce Prado; Dona da Cultura Popular – Madá, de Davi Cavalcante; e a estreia dos filmes Minha Saudade num Retrato eu Guardei, de Mony Mendonça e Julie Santos, e Em Busca da Riqueza (Quase) Esquecida, de Naira Soares. A exibição de Calmon também ganhou um contorno simbólico, ao integrar a programação em um momento de luto recente pela perda da cineasta Joyce Prado, uma das vozes relevantes do cinema negro contemporâneo.

A cineasta Naira Soares, de Em Busca da Riqueza (Quase) Esquecida, conta que exibiu o filme em uma sala de cinema pela primeira vez. “Esse é o primeiro lugar em que eu mostro o filme depois da casa da minha avó. Eu ainda não tinha visto o filme em uma tela tão grande. Foi uma surpresa perceber todos os detalhes”, contou. O filme parte de memórias familiares para refletir sobre histórias, saberes e afetos que atravessam gerações.
Mostrinha articula infância, imaginação e formação de público
A programação infantil da Mostra também abriu espaço para a imaginação dos pequenos. Na sessão da Mostrinha, foram exibidos Bia Desenha: Decalcando Nuvens, de Neco Tabosa; Quintal, de Mariana Netto e Contos Mirabolantes, de Andrei Miralha. A curadoria buscou valorizar diferentes territórios do país e estimular a criatividade das crianças por meio de histórias próximas do cotidiano. As obras dialogam com temas como cidade, casa e pertencimento, incentivando o público infantil a imaginar e criar a partir do que têm ao redor.
Durante a exibição, elementos como sotaques, personagens e paisagens ajudaram a aproximar o público infantil das narrativas. Nas conversas após os filmes, surgiram comentários espontâneos sobre as histórias e até reflexões sobre o uso excessivo de telas, reforçando o cinema como espaço de aprendizado, imaginação e conexão com o território.

A pequena Maya, de 7 anos, saiu da sessão animada, especialmente com a presença do personagem Zoinho. “Eu achei engraçado. Queria que tivesse mais filmes, mas já acabou, né?”, disse. Perguntada sobre qual havia gostado mais, respondeu sem hesitar: “Do primeiro, do segundo, do terceiro e do quarto”, ou seja, de todos. Raul, de 5 anos, contou que tem uma ligação especial com a natureza e, por isso, o último filme foi o seu favorito. “Gostei desse filme porque a menina queria salvar o passarinho”, comentou.
Produtor executivo da mostra e professor com 15 anos de experiência no ensino básico, João Brazil destacou a relação entre cinema e educação. Para ele, aproximar escola e sala de exibição é uma forma potente de ampliar repertórios e experiências. “O cinema é uma ferramenta muito importante dentro da sala de aula e também para a aprendizagem pedagógica. Trazer os alunos para a sala de cinema e exibir filmes de cinema negro é algo fundamental”, afirmou.
Segundo João, essa relação com a educação está presente desde a criação da EGBÉ. “A mostra tem várias ações, mas sempre priorizamos atividades com as escolas. Realizamos mesas de debate sobre cinema e educação, voltadas especialmente para professores, e também sessões infantis com estudantes. A ideia é formar público e estimular um olhar mais sensível e próximo do cinema negro”.
Afetos e memória atravessam sessão da Mostra Oficial
A expectativa para a sessão “Amor é Ação” foi tanta que a sala de exibição não conseguiu comportar todo o público interessado. Com três estreias na programação da noite, a sessão atraiu uma grande quantidade de espectadores, e algumas pessoas chegaram a aguardar do lado de fora, na esperança de conseguir acompanhar as obras. O cenário evidenciou o sucesso da EGBÉ nesta noite dedicada às estreias e o interesse do público em prestigiar os filmes e seus realizadores.

Para a diretora Naira Soares, a experiência foi especialmente significativa. “Ver a cadeia produtiva inteira envolvida, inclusive com a própria recepção, me faz desejar vida longa à EGBÉ. Eu acompanho desde o início, e ver a potência que essa ideia está se tornando me deixa realmente muito feliz e realizada”, afirmou. A cineasta também destacou a importância de uma edição dedicada às mulheres negras. “Ainda mais nesta temporada que fala sobre mulheres negras. Para a gente que estuda, que vive isso, saber que existem diversas mulheres que foram apagadas e silenciadas e que agora estamos nesse protagonismo me deixa muito feliz”.
Antes da sessão, as diretoras Julie Santos e Mony Mendonça, do filme Minha Saudade num Retrato eu Guardei, falaram sobre a importância de colocar mulheres no centro das narrativas. “A gente sempre buscou representar mulheres nas nossas histórias, pensar em personagens femininas e colocá-las na frente e atrás das telas. Hoje é o lançamento do nosso filme e estamos muito felizes de estrear aqui, ainda mais em uma edição que destaca a importância da contribuição das mulheres no audiovisual”, destacou Mony.

Entre o público presente estava o realizador audiovisual Marcos Santos, que foi à mostra para prestigiar os filmes e apoiar colegas do setor. “Vim para a EGBÉ para assistir e prestigiar os filmes exibidos. Em especial, vim apoiar minhas amigas, diretoras de Minha Saudade num Retrato eu Guardei. Acompanhei o filme desde a produção, então é muito bonito poder vê-lo estreando”, contou. Para ele, a exibição na mostra reforça a importância de espaços dedicados ao cinema negro. “É um filme que tem uma longa trajetória pela frente. É muito significativo ver um filme sergipano estrear em uma sala cheia, dirigido por mulheres negras sergipanas, em um evento voltado para realizadores negros.”
Os filmes exibidos na Mostra Oficial da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro seguem disponíveis para o público até o dia 19, por meio da plataforma Ubuplay. A disponibilização online amplia o acesso às obras para além das sessões presenciais, permitindo que a seleção circule e seja acompanhada por espectadores em diferentes territórios.




















