O terceiro dia da EGBÉ foi atravessado por percursos que revelam como o cinema negro se constrói entre territórios, experiências e gerações. Na Mostra Cotidianos em Estado de Invenção, o público acompanhou narrativas ancoradas em diferentes contextos, como Alagoas e Rio Grande do Norte. À noite, na Mostra Sara Gómez, foi um momento para apreciar a obra da primeira cineasta negra de Cuba, abordando temas sobre raça, classe e gênero dentro de um país pós-revolucionário.
A Mostra Cotidianos em Estado de Invenção reuniu quatro curtas-metragens que exploram jornadas de trabalho exaustivas, relações com a cidade e gestos de reinvenção pessoal. A partir desses atravessamentos, as obras propõem um outro olhar sobre a vida, buscando, em cada brecha, um espaço possível para o sonho.
Com a presença de Rosy Nascimento, diretora de Praia das Artistas (2025), e Daniel Torres, produtor de Comigo Ninguém Pode (2025), a sessão foi seguida de um debate com o público sobre os processos de criação e as relações construídas com os personagens.

Vinda de Natal, Rosy Nascimento compartilhou vivências que atravessam o próprio território do filme, em um espaço que também dialoga com sua trajetória. “Desembarcar aqui na EGBÉ tem sido uma experiência muito maravilhosa, porque a gente acaba combinando esses sabores que a gente tem, os cheiros, os nossos jeitos e entender também as nossas diferenças”.
Em sua fala, destacou como o território se conecta à produção da obra e às atrizes em cena, a começar pela reescrita, no feminino, do nome de uma das praias mais conhecidas da capital potiguar. Também apontou a importância de construir representações de corpos negros e LGBTQIA+ para além da violência, deslocando essas imagens para outros campos de existência e experiência.
“Precisamos de novas representações no cinema. Estamos cansados de sempre estarmos vinculados a imagens de violência, a imagens que nos degradam. Então, pensar essas existências reais cotidianas, com dramas simples, mas que todo mundo experiencia a seu modo, é o tipo de representação que a gente vem buscando, e acho que é o tipo de imagem que a gente quer deixar”, enfatizou.

Produtor de Comigo Ninguém Pode, dirigido por Madlene Delfino, Daniel Torres destacou a circulação do filme para além de seu estado de origem e a importância de apresentá-lo em outros contextos, como a EGBÉ. O documentário acompanha Joyce Nobre, artista da Ilha do Ferro, em Alagoas.
A partir de sua prática, Joyce utiliza a pintura para expandir os limites de gênero ao desenhar vulvas como flores, construindo uma reflexão sobre o corpo da mulher e suas potencialidades.
“E a gente está naquele lugar, na Ilha do Ferro, que é um lugar que respira arte. Então, a direção de arte do lugar, por si só, está pronta. E, assim, a gente estar lá filmando, poder retratar, documentar aquele lugar pela perspectiva e pela ótica da Joyce, com a sua arte, com a sua história, foi um feito. Fiquei muito contente de poder ajudar a contar essa história da Madlene e da Joyce, e muito feliz de ter chegado aqui, nessa mostra tão importante para o cinema negro e para o cinema em geral”.
Primeiro dia da Mostra Internacional
Para abrir a Mostra Internacional dedicada à cineasta cubana Sara Gómez, foi exibido o filme Di Cierta Manera (1977), que aborda os diferentes tipos de relação, desde o trabalho até o amoroso, e como esses encontros são atravessados pelo contexto pós-revolução cubana. Após a sessão, a curadora da mostra, a pesquisadora e professora Janaína Oliveira, e a cineasta Everlane Moraes conduziram o debate, refletindo sobre os elementos centrais da obra e sua relevância histórica para o cinema.
“Sara Gómez é uma realizadora cubana, a primeira mulher em Cuba a fazer um longa-metragem de ficção, depois de já ter produzido outros tantos curtas documentais. Uma pessoa que faleceu muito cedo e talvez tenha demorado também a entrar nesse circuito da história do cinema. Então, eu acho que a presença dela aqui este ano cumpre esse papel, também, que a EGBÉ vem fazendo de formação de público, de ampliação de repertório para cinematografias negras no mundo”, ressaltou Janaína Oliveira.

A cineasta, que faleceu precocemente aos 31 anos, revolucionou o cinema ao tensionar, em suas obras, o lugar das mulheres dentro da sociedade e da revolução, mostrando que sua filmografia é capaz de atravessar o tempo e se tornar cada vez mais contemporânea.
“Acho que a Sara Gómez tem uma peculiaridade enquanto cineasta e documentarista, principalmente propondo um documentário híbrido, propositivo e crítico em um contexto político e social extremo. Ela consegue alcançar um lugar de subjetividade aliado à objetividade do documentário. E é muito triste que a gente só consiga descobri-la tanto tempo depois, porque a gente está falando de um contexto de Cuba, que está do nosso lado. Então, acho importante que a gente conheça a filmografia dessa mulher, principalmente que as mulheres conheçam, que a gente consiga se aproximar desses cineastas revolucionários”, explicou a cineasta Everlane Moraes.

Ao integrar a programação da EGBÉ, a obra da diretora amplia os diálogos da mostra para além do contexto brasileiro, conectando o cinema negro produzido no país a outras experiências da diáspora. Sua presença reafirma o papel da mostra na formação de público e na circulação de referências fundamentais para a compreensão do cinema negro em perspectiva internacional.
A Mostra Internacional Sara Gómez segue até amanhã, com os filmes Guanabacoa: Crónica de mi familia (1966) e Mi aporte (1969), no Sesc Comércio. Logo depois, acontece, no Cine Walmir Almeida, a Mostra Oficial com a sessão Corpo, Memória e Reconstrução, seguida da mesa-redonda “Mulheres Negras Construindo o Audiovisual Brasileiro”.













