O segundo dia da EGBÉ — Mostra de Cinema Negro foi marcado pela articulação entre cinema e educação. Nesta segunda-feira (13), estudantes, professores e profissionais se reuniram no Sesc Comércio para debater como o audiovisual pode atuar como ferramenta de transformação social e política dentro das escolas. A programação incluiu ainda lançamento de livros, a Mostra Lilian Solá Santiago, com exibição de filmes e bate-papo com a cineasta.
A programação começou com a roda de conversa “Cinema e educação antirracista”, com as presenças da professora da Universidade de Brasília, Edileuza Penha de Souza, e de Diogo Teles, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Cinema e Educação (NICE/UFS), com mediação de João Brazil, idealizador do cineclube Candeeiro e produtor executivo da EGBÉ.
Edileuza trouxe a memória para o centro da conversa. Ela lembrou que, desde a infância, seus pais lhe ensinaram que estudar era um ato de libertação. Ao longo de sua trajetória como professora e historiadora, passou a perceber o cinema como uma linguagem capaz de ampliar repertórios e abrir possibilidades de mundo para os alunos.

A Lei 13.006/2014 obriga a exibição de pelo menos duas horas mensais de filmes nacionais nas escolas de educação básica. Já a Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. A partir dessas diretrizes, o cinema pode ser compreendido tanto como mediador de conhecimento quanto como agente de transformação. Para isso, no entanto, é necessária vontade política para sua implementação efetiva.
“Pensar uma gestão participativa com os alunos, com o corpo docente, com os estudantes, com a comunidade, é também o caminho para construir uma escola mais afetiva, mais harmônica e mais prazerosa”, afirmou Edileuza. O debate também destacou a presença crescente de realizadores negros no audiovisual e os impactos dessa produção nas formas de representação. Com uma diversidade maior de corpos e narrativas nas telas, essas obras ampliam as possibilidades de identificação dos estudantes com as histórias exibidas.
“Pensar cinema e educação é pensar essa diversidade, esses novos mundos possíveis. Porque o cinema tem esse poder, esse poder de nos fazer sonhar, de nos transportar para outro mundo. E até ontem a gente tinha esse cinema somente com pessoas brancas, a gente não tinha filmes de amor com pessoas negras, e aí a entrada desses diretores, realizadores negros e negras no mercado tem possibilitado esse outro lugar. Esse lugar que é sonho, mas um sonho que também é real”, enfatizou a professora.

A partir da discussão sobre pertencimento nas telas, Diogo Teles apresentou experiências desenvolvidas no NICE, entre elas a pesquisa “Cinema-educação: imagem é um direito humano?”. O projeto propõe refletir sobre quem tem o direito de se ver nas imagens e, a partir disso, questionar quais histórias são contadas e por quem. “É um gesto criativo como forma de potencializar o encontro com as imagens, de construir outras visões de mundo. Criar espaços para que outras histórias sejam contadas e que elas entrem em outros espaços”, ressaltou o pesquisador.
Lançamento de livros
Após a mesa, o público teve a oportunidade de conhecer novas publicações. Janaína Oliveira e Kênia Freitas estiveram presentes com o livro “Curadoria em Cinema: do pensamento em ação”, organizado em conjunto com Amaranta Cesar, Carla Maia, Carol Almeida, Ingá Patriota e Izabel de Fátima.
A obra aborda os processos de curadoria em mostras, festivais e outros contextos de exibição. A partir dessa experiência, as autoras propõem uma reflexão sobre a profissionalização da curadoria, defendendo seu reconhecimento como um campo de atuação estruturado dentro do audiovisual.
“É bem importante pensar na curadoria como um processo de intervenção, de formação, como processo político. Quer dizer, como processo não só de escolha de filme, que já é bastante coisa, mas também entender como é que esse processo de escolha de filme, de programação, da maneira de pensar e fazer ver isso, assim vai articulando transformações, transformações da maneira como a gente pensa o cinema e da maneira também como o cinema e os filmes se relacionam socialmente”, explicou Kênia Freitas.

Na mesa ao lado, Edileuza Penha lançava “Cinema Negro no feminino” e “Cinema Quilombola – territorialidades e territórios ancestrais”. A partir de uma perspectiva afrocentrada, as obras propõem repensar o audiovisual em diálogo com território, memória e experiência.
“São livros que trazem possibilidades de a gente encontrar elementos fílmicos, elementos cinematográficos, para repensar esses territórios, para repensar o que a gente está chamando de um cinema negro no feminino, para elencar afeto, amor, desejo, cuidado… Então, eu acho que são livros acadêmicos, mas, ao mesmo tempo, são uma leitura-respiro. É uma leitura que nos aponta, sim, é possível sonhar, é possível desejar e o amor está no ar. Porque já dizia bell hooks, o amor é revolucionário”, comentou.
Mostra Lilian Solá Santiago
Encerrando a programação do dia, a Mostra Lilian Solá Santiago exibiu os filmes Eu tenho a palavra (2011) e Balé de pé no chão: a dança afro de Mercedes Baptista (2006). No primeiro, a cineasta aborda o poder das palavras e suas dimensões ancestrais; no segundo, acompanha a trajetória de Mercedes Baptista, referência na difusão da dança afro no Brasil.
As obras funcionam como registros históricos de um país atravessado pela colonização, evidenciando os impactos sociais, políticos e econômicos da desumanização. Ao mesmo tempo, revelam trajetórias de reinvenção e resistência.
“Todo filme é um documento. Todo filme traz a história; se não é uma história sobre o que ele fala, é uma história do tempo em que foi produzido. E, mais provavelmente, as duas coisas. Então, assim, sempre dá para a gente entender muito da vida, da história do tempo a partir dos filmes em que eles foram feitos”, afirmou Lilian.

A cineasta paulista também destacou a importância da homenagem recebida nesta edição da EGBÉ, dedicada à contribuição de mulheres negras no audiovisual. “Eu tô muito feliz de estar aqui, espero que o festival floresça, cresça cada vez mais. É gratidão a palavra, sabe? Um agradecimento muito profundo por ter sido escolhida como homenageada, por ter essa sessão, de poder conversar com um público tão inteligente e interessante. Só alegria”, disse.
E, em uma das cadeiras, uma mulher assistia encantada ao documentário Balé de pé no chão. Seus olhos vidravam ao ver na tela Mercedes Baptista, uma de suas maiores referências. Margot Oliveira foi, por muitos anos, professora de dança afro e, atualmente, segue na área da pedagogia, sem se afastar de suas raízes.
“Poder sentir a arte da dança no cinema é outra pegada. Saber que aqueles corpos estiveram, em algum momento, em ressonância com toda aquela energia, isso é dança e cinema. Duas paixões juntas, não tinha como eu não vir prestigiar”, declarou.
A experiência sintetiza o eixo do dia: o cinema como ferramenta de formação, memória e reconhecimento, atravessando educação, identidade e modos de se ver nas imagens.





























