Valdice Teles e Mariano Antônio são homenageados nesta edição da Egbé Mostra de Cinema Negro

Entre os dias 29 de março e 5 de abril, acontece a 8ª edição da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro, em Aracaju. Como todos os anos, a mostra busca homenagear personalidades que contribuíram e contribuem para a construção do imaginário negro brasileiro. Valdice Teles e Mariano Antônio deixaram um legado inestimável para a cultura afro-sergipana, produzindo narrativas nos palcos e nas ruas que valorizaram a negritude do território.

“Certamente, Valdice e Mariano, se estivessem vivos, poderiam estar contribuindo para o nosso cinema negro. Celebrar suas memórias e feitos é uma forma de olhar para suas trajetórias e nos fortalecer para continuar realizando cinema e teatro negro sergipano”, destaca Luciana Oliveira, diretora-geral da mostra. Luciana ressalta, ainda, a dedicação de Valdice Teles à educação e o interesse de Mariano Antônio em inserir a cultura popular no teatro. “O que o corpo diz, o que o canto narra na cultura popular são nossas histórias afro-diaspóricas, e ele foi genial nessa intersecção”, afirma.

Lindolfo Amaral, ator do Grupo Imbuaça, reconhecido como patrimônio cultural do estado de Sergipe e que tem as ruas como palco principal, comenta sobre a escolha. “Homenagear Mariano Antônio, no ano em que se completam 30 anos de sua passagem, é um lindo reconhecimento do importante trabalho artístico que ele desenvolveu. É, também, uma forma de rememorar sua trajetória”, destaca.

O ator relembra o encantamento com que Mariano falava sobre sua infância em Itaporanga d’Ajuda, onde teve os primeiros contatos com manifestações populares e com o circo mambembe. “Tal fato iluminou toda a sua trajetória. Ele era atraído pelas manifestações de rua. Havia algo que o provocava: as danças dramáticas, o maracatu, o frevo, o samba e o teatro de rua, que estava dentro desse contexto. Aliás, Mariano era um excelente dançarino, além de ator e cantor”, comenta, ressaltando que, para ele, o maior legado deixado por Mariano Antônio para o Grupo Imbuaça foi sua pesquisa no campo das culturas populares, sua disciplina em qualquer atividade artística e o respeito que tinha pelos mestres e brincantes.

Para os aracajuanos, o nome Valdice Teles soa familiar, já que, no ano de seu falecimento, em 2005, foi inaugurada a Escola Oficina de Artes Valdice Teles, instituição voltada para o incentivo do desenvolvimento e aprimoramento do ensino das linguagens artísticas. Nascida em Riachuelo, além de pedagoga, Valdice foi atriz, dramaturga e diretora, além de ter integrado o Grupo Imbuaça.

No episódio especial sobre Valdice, lançado pelo podcast da EGBÉ em comemoração a esta edição, Hector Sousa conta como a atriz uniu suas duas paixões e vivências, levando o teatro para a sala de aula e a sala de aula para o teatro, além de ter lutado, junto aos seus companheiros do Imbuaça, pela democracia em um período ditatorial. “Às vezes, a gente preparava um ensaio oficial para os censores, mas, quando chegávamos à rua, fazíamos o texto como ele era. Geralmente, havia fiscais infiltrados no público e, por diversas vezes, o Imbuaça foi chamado para responder por que havia feito aquilo. Sempre eu e Valdice íamos (…) já se tremendo, chegávamos lá e tinha toda aquela inquisição”, conta a atriz e produtora Isabel Santos, relembrando as repreensões.

Anne Samara, jornalista, realizadora audiovisual, atriz e apresentadora sergipana, é um dos exemplos de como a vida e a obra de Valdice Teles ressoam até hoje. “Eu não convivi com Valdice Teles. Minha percepção é a partir da Escola Oficina de Artes, é a partir da imagem que vejo de Valdice Teles estampando o Teatro Atheneu. (…) Sempre que entro na escola, vejo o retrato dela e é o retrato dessa mulher preta, de chapéu colorido e com esse sorriso imenso. Eu digo: que mulher grandiosa”, frisa Anne Samara.

Como não poderia deixar de ser, o podcast da EGBÉ também conta com um episódio especial sobre Mariano Antônio. Hiago Feitosa, responsável pela pesquisa, ressalta que o projeto se baseou muito nos relatos orais de pessoas que conviveram com ele ou, de alguma forma, foram marcadas pelo trabalho desses artistas afro-sergipanos. “Na prática da pesquisa, é sensível contar essas histórias, porque se trata de narrativas negras que marcam de forma imensurável a arte e a cultura de Sergipe, partindo do teatro, mas alcançando outras plataformas, repensando possibilidades de construir e reconstruir nossa identidade por meio da cena, do corpo e das performances visuais”, destaca.

Hiago, que também é pesquisador acadêmico, comenta como o legado inestimável desses artistas o ajudou. “Para nós, pessoas negras, a cultura muitas vezes é esse estandarte de luta, é o que passa das nossas mães, é o que aprendemos com os mais velhos e o que não pode ficar relegado a um passado distante. Muito do que vi do trabalho de Mariano e Valdice foi essa virada de chave para manter essa cultura e arte vivas e em movimento”, reflete.

As homenagens a Valdice Teles e Mariano Antônio acontecem ao longo da programação da 8ª EGBÉ — Mostra de Cinema Negro, com momentos especiais dedicados à sua memória. A cerimônia de abertura, no dia 29 de março, marcará a entrega do Troféu Severo D’Acelino, que será recebido pelo Grupo Imbuaça em nome dos homenageados, reconhecendo suas contribuições inestimáveis para o teatro negro sergipano e a valorização das culturas afro-brasileiras. Assim, a Mostra reafirma seu compromisso com a preservação dessas trajetórias, fortalecendo a conexão entre passado e presente para que a arte negra siga viva e em movimento.

Sobre a EGBÉ
A EGBÉ – Mostra de Cinema Negro é um evento anual realizado com o objetivo de promover a cultura e o cinema negro no Brasil, além de ser uma plataforma de debate sobre questões raciais e protagonismo no audiovisual. Criada para dar visibilidade ao trabalho de cineastas negros e artistas afro-brasileiros, a Mostra se consolidou como um espaço importante de resistência e afirmação da cultura negra. A 8ª edição se reafirma, assim, como um importante evento de valorização da cultura negra, um espaço de resistência cultural e política, e uma plataforma de formação e fortalecimento da identidade afro-sergipana, promovendo debates essenciais sobre o papel do cinema e da educação na luta contra o racismo e pela valorização da memória negra.


PROGRAMAÇÃO COMPLETA

 29 MARÇO – SÁBADO
Local: Cine Vitória
16h – Mesa: Atravessamentos entre Teatro e Cinema Negro
Convidados: Severo D’Acelino, Jonathan Rodrigues, Rita Maia. Mediação: Hiago Feitosa
18h30 – Entrega do Troféu Severo D’Acelino: Mariano Antônio Ferreira e Valdice Teles
19h – Exibição do Longa Convidado “Othelo, o Grande” – Dir. Lucas H. Rossi dos Santos (2023)
20h30 – Diálogo com o diretor do filme

31 DE MARÇO – SEGUNDA
Local: Centro de Criatividade
14h às 17h – Oficina “Som e Oralidade” com Edwyn Gomes e Gabriel Muniz

Local: Cine Vitória
15h – Mostrinha Vunji (Infantil. Classificação: Livre)
Tom Tamborim (Dir. Maria Carolina e Igor Souza. Animação. 10 min)
Maré Braba (Dir. Pâmela Peregrino. Animação. 7 min)
Bia Desenha (Dir. Neco Tabosa. Animação. 9min)
Iemanjá Yemojá: A criação das ondas (Dir. Célia Harumi. Animação. 9 min)
19h – Mostra oficial EGBÉ (Livre)
De tudo um pouco sabia costurar (Dir. Yérsia Assis e Felipe Moraes – SE. 24min)
Escavação (Dir. Alex Reis – RJ. 5min)
Para as gerações que vieram antes de mim (Dir. Filipe Bretas Lucas – MG. 13min)
Alaroke: uma história ao culto dos orixás em Sergipe (Dir. Lucas Cachalote – SE. 25min)
A saudade em um batuque (Dir. Milena Carvalho – Brasil. 16min)

1 DE ABRIL – TERÇA
Local: Centro de Criatividade
14h às 17h – Oficina “Som e Oralidade” com Edwyn Gomes e Gabriel Muniz

Local: Cine Vitória
15h – Mostra convidada – EGBÉ + MIMB: Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba
Jussara (Dir. Camila Ribeiro. Animação. Salvador. 8 min – Livre)
Além da cancela (Dir. Margarete Jesus. Ficção. Salvador. 24 min – Livre)
Remendo (Dir. Roger Gomes Ghil. Ficção. Vila Velha. 20 min – 13 anos)
Deixa (Dir. Mariana Jaspe. Ficção. Rio de Janeiro. 14 min -16 anos)
19h – Mesa (online): Cinema Negro e Educação Antirracista
Convidados: Clementino Júnior e Larissa Fulana de Tal. Mediação: José Figueiredo

2 DE ABRIL – QUARTA
Local: Centro de Criatividade
14h às 17h – Oficina “Som e Oralidade” com Edwyn Gomes e Gabriel Muniz

Local: Cine Vitória
15h – Filmes moçambicanos em seguida bate-papo com a curadora Yérsia Assis (Classificação: 12 anos)
Tristânia – O rastilho de esperança (Dir. Lutegardo Gonçalves. Moçambique. Ficção. 5min)
Mahla (Dir. Mickey Fonseca. Moçambique. Ficção. 29min)
Kuxa Kanema E22 (Dir. Isamael Vulvo e José Batptista – Documentário – 10 min)
Ofensiva (1980) (Dir. Camilo de Sousa – Documentário – 32 min)
19h – Exibição do Longa Convidado “Ginga Reggae na Jamaica do Brasil” – Dir. Nayra Albuquerque (2023)
20h30 – Bate-papo com a diretora

3 DE ABRIL – QUINTA
Local: Centro de Criatividade
14h às 17h – Oficina “Som e Oralidade” com Edwyn Gomes e Gabriel Muniz

Local: Cine Vitória
15h – Mostrinha Vunji (Infantil. Classificação: Livre)
Tom Tamborim (Dir. Maria Carolina e Igor Souza. Animação. 10 min)
Maré Braba (Dir. Pâmela Peregrino. Animação. 7 min)
Bia Desenha (Dir. Neco Tabosa. Animação. 9min)
Iemanjá Yemojá: A criação das ondas (Dir. Célia Harumi. Animação. 9 min)
19h – Filmes angolanos em seguida bate-papo com a curadora Yérsia Assis
Alambamento (Dir. Fradique – Angola – 15min –  2010)
Lúcia no céu com semáforos (Dir. Ery Claver  e Gretel Marin – 15min – 2018)
Os Ouvidos Que Ouvem (Dir. Hugo Salvaterra – 15min – 2016)

4 DE ABRIL – SEXTA
Local: Centro de Criatividade
14h às 17h – Oficina “Som e Oralidade” com Edwyn Gomes e Gabriel Muniz
19h – Mostra convidada – EGBÉ + Infinita: Festival de Cinemas Negros e Indígenas
Nada haver (Dir. Juliano Gomes. Experimental. Rio de Janeiro. 11 min)
Quando Aqui (Dir. André Novais. Drama. Minas Gerais. 36 min)
Oração (Dir. Haroldo Saboia. Experimental. São Paulo. 30 min)
Patuá (Dir. Renaya Dorea. Experimental. RJ e Cuba. 3 min)
20h30 – Performance “Corpo-Terra” com Jonathan Rodrigues.

5 DE ABRIL – SÁBADO
Local: Cine Vitória
15h – Encontro de profissionais do audiovisual negro sergipano
18h – Exibição do filme “Black Rio, Black Power” – Dir. Emílio Domingos
19h30 – Mesa: Diálogos entre História e Audiovisual Negro
Convidados: Dom Filó (CULTNE); Petrônio Domingues (UFS); Mediação: Kênia Freitas (UFS/FICINE/SANKOFA)
Local: Doca
22h – Show de Encerramento com DJ Rafa Aragão, Rolê DY Negrão (Baile Charme) e Mestre Saci