Rota dos Quilombos tem início na Mussuca, em Laranjeiras

Quem chegava ao Centro Comunitário da Mussuca, no dia 14 de junho, era recebido por um aroma rico e ancestral, cheiro de comida saudável. Naquele sábado, a Cozinha de Vó, em parceria com a “Rota dos Quilombos”, circuito cineclubista realizado pelo Cineclube Candeeiro, que promove sessões gratuitas de cinema e rodas de conversa em territórios negros do estado, realizou uma edição especial em parceria com a Egbé — Mostra de Cinema Negro, levando ao maior quilombo de Sergipe exibição de filmes, rodas de conversa e vivências culturais profundamente ligadas à história do povo negro, tanto através do cinema quanto da culinária.

Com um rico bioma entre mata atlântica e manguezais, o território abriga tradições como o samba de coco, o tambor dos terreiros e práticas agrícolas ancestrais. A equipe da Egbé viveu uma verdadeira imersão gastronômica produzida pelas mulheres da Cozinha de Vó com ingredientes encontrados e cultivados na própria Mussuca. “Uma comida que respeita o tempo do alimento ser tirado da roça, a agricultura familiar orgânica, o pescado, marisco, vêm dos nossos manguezais, da marisqueira, do pescador artesanal, então é esse conjunto de saberes, fazeres para guardar essa memória e garantir que jovens como eu e outros tenham acesso a esses saberes e a ancestralidade permanece aqui”,  afirma o coordenador do Cozinha de Vó, Alexandre Marques.

Cleci do Nascimento, uma das responsáveis pelo cardápio, nasceu e se criou na comunidade quilombola da Mussuca. Marisqueira, pescadora, também encontrou outro talento no projeto Cozinha de Vó. “Como já dissemos, tudo é produzido aqui na comunidade, até as paredes da cozinha ali, então é muito gratificante receber pessoas aqui, porque nos sentimos mais vivas.” destaca orgulhosa.

Inspirada no pensamento da historiadora sergipana Beatriz Nascimento, que dizia: “é preciso a imagem para recuperar a identidade”, a mostra trouxe para o centro da comunidade quilombola narrativas negras contadas por cineastas negros. Os filmes exibidos abordaram temas como ancestralidade, quilombismo, cosmologias negras, além de questões climáticas, abrindo caminhos para o reconhecimento da imagem negra como ferramenta de reconstrução da memória coletiva e da identidade cultural.

A primeira sessão começou por volta das 18h com a Mostrinha Vunji, dedicada às crianças da comunidade, já que a construção da autoestima negra é onde tudo começa. Foram exibidos os curtas “Tom Tamborim”, de Maria Carolina e Igor Souza, “Maré Braba”, de Pâmela Peregrino, “Bia Desenha”, de Neco Tabosa, e “Ewé de òsányín”: o segredo das folhas, de Pâmela Peregrino.

Já a sessão voltada para os adultos levou filmes que celebram a memória coletiva, o território e a ancestralidade negra e indígena, como “Essa terra é meu quilombo”, de Rayane Penha, “O sonho de Anu”, de Vanessa Kipá, “O ano que a onça descansou” de Geilson Gomes e Yérsia Assis e “Espelho”, de Luciana Oliveira.

Desafios

Apesar da Mussuca ser o maior quilombo de Sergipe, ela ainda enfrenta desafios que ameaçam diretamente o espaço. “Temos grandes empreendimentos que ferem a nossa terra e as nossas histórias. A gente não tem a titulação do nosso território e é uma luta a regularização fundiária que os territórios quilombolas passam. O próprio estado reconheceu nosso território em 2006, mas até hoje não tivemos a titulação dessas terras,” destaca Alexandre Marques, que também faz parte da coordenação do fórum dos povos tradicionais de Sergipe.

A luta do Quilombo Mussuca permanece, mas naquele sábado seus contornos se fortaleceram mais um pouquinho através do diálogo, da escuta e do cinema, como esse potente recurso de autoidentificação.

Após a Mussuca, a Rota segue para Brejão dos Negros (Brejo Grande), no dia 19 de julho, e finaliza no Povoado Aguada (Carmópolis), em 26 de julho — sempre com sessões ao ar livre e rodas de conversa com a comunidade.