Em sua última parada, a Rota dos Quilombos promoveu mais um encontro potente entre ancestralidade e cinema. Em parceria com a EGBÉ — Mostra de Cinema Negro, responsável pela curadoria do projeto cineclubista desenvolvido pelo Cineclube Candeeiro, as exibições chegaram ao povoado de Aguada, em Sergipe, no último sábado, 26. A parede que, por décadas, abriga a Casa de Santa Bárbara se transformou em tela de cinema para exibir o filme que foi gravado naquele mesmo território, “O ano em que a Onça descansou”, de Yérsia Assis e Geilson Gomes. Além disso, a Mostrinha Vunji, voltada para o público infantil, também fez parte do evento.
Com os olhos curiosos grudados na tela, as crianças do povoado que estavam presentes puderam ter acesso a obras que, de outra forma, seriam improváveis, já que os filmes selecionados, além de serem realizados por pessoas negras, não estão dentro do circuito comercial. Apresentando vários tipos de animação, desde 2D até animação de massinha, a curiosidade certamente foi aguçada entre os pequenos. “Dificilmente vemos filmes infantis que destacam a vivência de crianças negras. Minha filha me olhava o tempo inteiro, curiosa, e tenho certeza que, quando a gente chegar em casa, ela vai fazer muitas perguntas”, destacou Maiza Menezes de Assis.



Fé, memória e ancestralidade
“O ano em que a onça descansou”, de Yérsia Assis e Geilson Gomes, narra, a partir de lembranças do Samba de Aboio — festa/culto a Santa Bárbara/Iansã — o ano da não festa, conforme explica a realizadora Yérsia Assis, presente na exibição histórica. “Desde 2014, pensávamos em filmar o samba, mas outras coisas apareceram nesse meio tempo. Em 2020, com a vinda da Lei Aldir Blanc, a gente adapta um roteiro que já tinha sido escrito e envia o projeto, que foi contemplado”, contou.
A dupla, entendendo que não iria filmar a festa, segue para Aguada, em 2021, com o intuito de rodar a não festa. “O filme tem essa marcação histórica muito grande, todos os signos estão lá; a máscara, o distanciamento social, a ausência, a casa vazia”, destacou.





Quando a memória transcende
Zé de Paizinho, avô de Yérsia Assis, foi mestre do Samba de Aboio e faleceu em 2020, na mesma data em que o filme foi exibido pela primeira vez em Aguada. “A exibição acabou marcando os cinco anos de falecimento de José Francisco, fato que tornou essa noite muito mais simbólica”, revelou a co-diretora.
A noite daquele sábado ressoou, também, uma das reflexões fundamentais da historiadora sergipana Maria Beatriz do Nascimento, quando ela explica que, para recuperar a memória, é preciso lutar por visibilidade. “É preciso a imagem para recuperar a identidade”, em suas próprias palavras. Projetar o filme no território onde ele foi rodado contribuiu para o fortalecimento identitário do Samba de Aboio e de todos os seus integrantes.
A festa, além de estar fortemente ligada à família consanguínea de Yérsia Assis, vai para além disso e acaba se tornando, também, um patrimônio da cultura afro-sergipana. “Eu demorei para me sentir encorajada porque achava que precisava da maturidade necessária para me envolver nessas histórias, entendendo que, o samba, envolve uma questão religiosa e permeia um outro lugar de permissões e de autorizações que eu não tinha e passo a ter, em determinado momento, escolhendo a linguagem audiovisual para contar essa história a partir do meu ponto de vista”, ressalta.








Herança que pulsa
Após a exibição marcada por aplausos e muita emoção, o mestre Genilson Mota de Assis destaca o quanto é gratificante rever as pessoas que já se foram e a importância de manter o legado deixado vivo e potente. “Para mim, é muito gratificante e emocionante representar todos os pais, todas as mães, todos os filhos, irmãos e sobrinhos que deram a vida por isso aqui. Eu também vou dar a minha. O samba de Aboio já tem mais de 130 anos, e eu tenho certeza absoluta de que sempre vai aparecer um Mota ou um Assis para tocar isso aqui adiante”, confirmou.
O mestre ressalta que tocar a festa não é difícil onde existe família e comunidade, já que o Samba de Aboio se estende para além dos Mota e Assis. “O difícil é preservar a memória e o legado dos que já se foram”, destacou, reafirmando a importância da produção do filme.
Naquele espaço marcado pela ancestralidade, onde a força da fé e o ritmo do Samba de Aboio atravessa gerações, os presentes ecoaram as palavras de Genilson. “Vou confessar o que me pegou pelo pé, na verdade. É importantíssimo a existência desse tipo de evento para que a memória dos antigos fique viva. Mas o que me pegou foi ter visto o meu pai, que não vejo desde o falecimento dele e ter visto o meu tio. É gratificante ver que a memória deles continua viva”, confessa Valdiene Vieira Santos, integrante do grupo, sem deixar de destacar que quando ela vai brincar no samba é pra valer. “Isso faz parte da minha história, independente do que eu estou sentindo, eu venho, porque eu nasci e me criei aqui dentro,” refletiu.
Entre o burburinho das crianças e o chiado das folhas das mangueiras que abraçam a Casa do Samba de Aboio e de Santa Bárbara, a noite seguiu com muita partilha de lembranças que a exibição despertou. E, naquela noite, calorosa, em que, numa roda improvisada, o canto foi puxado, a Rota dos Quilombos encerrou essa edição com seu propósito alcançado: reforçar a ideia do Cinema Negro como um espelho, não apenas contribuindo para a circulação das obras exibidas no interior do estado, mas fortalecendo, também, a autoestima e a identidade negra quilombola sergipana.





