Levar o cinema negro para dentro das salas de aula é a proposta do projeto EGBÉ – Mostra de Cinema Negro nas Escolas, iniciativa cultural que vem articulando educação, arte e reflexão crítica em escolas públicas de Sergipe. A ação busca democratizar o acesso ao audiovisual produzido por realizadores negros e estimular debates sobre identidade, memória, território e pertencimento.
Em fevereiro, a EMEF Doutor Carvalho Neto recebeu uma das primeiras exibições do projeto neste ano. Já na noite do último dia 5 de março, foi a vez da Escola Municipal Alcebíades Melo Vilas Boas, localizada no bairro Industrial. Na ocasião, estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) assistiram aos filmes “Caixa d’Água: Qui-Lombo é Esse?”, dirigido pela sergipana Everlane Moraes, que apresenta a história do Quilombo da Maloca, em Aracaju, e “A Velhice Ilumina o Vento”, da cineasta Juliana Segóvia, que acompanha a trajetória de Valda, uma mulher negra idosa que compartilha reflexões sobre autonomia e liberdade na velhice.
Realizado em parceria com o Cineclube Candeeiro, o projeto promove uma mostra itinerante com exibições de filmes seguidas de rodas de conversa mediadas. A ação integra um projeto financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, com execução da Funcap. A proposta é utilizar o cinema como ferramenta pedagógica, ampliando repertórios culturais e incentivando estudantes a refletirem sobre questões raciais e sociais presentes na realidade brasileira.
O Produtor executivo da EGBÉ e responsável pela iniciativa, João Brazil explica que a exibição ajuda a descentralizar o acesso ao cinema e levar o audiovisual para espaços onde muitas vezes ele não chega. “O projeto é uma forma de levar a mostra de cinema negro para dentro das escolas. A gente tenta dialogar com escolas, associações e comunidades para descentralizar o cinema e alcançar outros públicos”, afirma.

O cinema negro como ferramenta de educação
Para muitos estudantes, foi a oportunidade de conhecer a própria cidade. É o caso do Victor Hugo Santos Nunes, aluno da sexta etapa da EJA, que não conhecia a história da Maloca antes da sessão. Para ele, a experiência foi importante justamente por trazer novas informações para dentro da escola. “Eu não conhecia a Maloca nem o projeto, mas achei interessante o fato de vocês apresentarem isso na escola, porque quem não conhece acaba se informando. Foi bem informativo”, afirma.
Outra estudante presente era Karla Karina dos Santos, da quinta etapa da EJA. Ela conta que já conhecia a comunidade da Maloca, mas não sabia como havia surgido nem qual era sua trajetória histórica. O documentário, segundo ela, ajudou a preencher essa lacuna de conhecimento. “Eu já conhecia a comunidade, mas não sabia de onde veio, como surgiu. O filme mostrou essa trajetória, e era algo que eu queria entender há muito tempo. Hoje tive a oportunidade de descobrir”, relata.

A atividade também contou com a participação de professores da escola. Para a professora Edilza Mota Santos Bastos, que atua na alfabetização da EJA e é doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Sergipe, a exibição reforça a importância de trabalhar história e identidade no ambiente escolar. Segundo ela, o primeiro curta chama atenção por revelar histórias pouco conhecidas da própria cidade. “Foi surpreendente descobrir um quilombo dentro da área urbana, porque geralmente associamos essas comunidades a áreas rurais ou mais distantes”, afirma.
Já o segundo filme, que narra a trajetória de Valda, gerou identificação entre muitos participantes, inclusive para ela. Para a professora, atividades como essa ampliam o processo educativo ao conectar história, cultura e experiências de vida, contribuindo para que os estudantes desenvolvam novos olhares sobre a cidade e sobre sua própria trajetória.

Cinema negro como ferramenta de educação antirracista
Mais do que exibir filmes, o projeto busca fortalecer práticas de educação antirracista dentro do ambiente escolar. A presença do cinema negro nas escolas também dialoga com a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana no currículo da educação básica.
As atividades são voltadas para estudantes do ensino fundamental, médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), além de professores e gestores escolares. Nas turmas da EJA, o diálogo ganha ainda mais potência, já que muitas das narrativas presentes nos filmes se conectam diretamente com experiências de vida marcadas por trabalho, resistência e construção de identidade.
Ao ocupar o espaço escolar, o projeto EGBÉ aposta no cinema como uma linguagem capaz de provocar reflexões, ampliar horizontes e fortalecer a autoestima dos estudantes. Em um cenário em que muitas produções negras ainda enfrentam dificuldades de circulação, iniciativas como essa também contribuem para formar novas plateias e reconhecer o audiovisual como instrumento de transformação social.





