A 9ª Mostra de Cinema Negro da EGBÉ acontece em abril de 2026 e tem como tema “A contribuição das mulheres negras no audiovisual brasileiro”. A edição propõe um olhar atento para as trajetórias, obras e práticas construídas por mulheres negras no cinema nacional e chega ao público com um novo visual. A proposta estética parte da autoimagem como eixo central e valoriza a forma como cineastas negras se veem, se narram e constroem suas trajetórias no audiovisual brasileiro.
Os elementos visuais expressam histórias de luta, resistência e afirmação da população negra, e reafirmam o papel central das mulheres como sujeitas de todo o processo. Na EGBÉ, essa representação não ocorre somente na aparência, mas também na narrativa. A estetica da identidade visual se ancora na metáfora das mulheres-peixe, que seguram câmeras-espelho e ampliam as possibilidades de representação no audiovisual, reafirmando o cinema negro como espaço de autoria e memória.
Essa representação dialoga com a reflexão da jornalista e pesquisadora Rosane Borges sobre o espelho de Oxum. Segundo a autora, cineastas negras do nosso tempo se apropriam desse espelho para deslocar o olhar autorreferencial e construir vínculos com o outro. A identidade visual foi criada pela artista visual sergipana Larissa Vieira, conhecida como Mundo Negro. De acordo com Luciana Oliveira, diretora geral e artística da EGBÉ, a artista foi convidada em razão da força poética e política de suas produções.
“A escolha de Larissa Vieira nasce do reconhecimento de uma artista cuja prática visual está profundamente conectada às narrativas negras contemporâneas. Sergipana, comprometida com a imagem negra do nosso território e da diáspora africana, sabíamos que ela traduziria em imagem o tema apresentado pela 9ª EGBÉ de forma poética, marcante e potente”, destaca a idealizadora do evento.
Imagem, ancestralidade e autorrepresentação
Os símbolos presentes na composição fazem referência à matripotência das mulheres negras e às suas ancestrais, articulando criação artística, memória e ancestralidade. No centro da imagem, duas mulheres se relacionam com uma câmera-espelho, rompendo com a lógica tradicional de captura da imagem. Esse gesto simboliza a autorrepresentação e o controle das próprias narrativas, reafirmando as mulheres negras como origem e fundamento de suas histórias.
Já a paleta de cores dialoga com a orixá Oxum, divindade da mitologia africana associada à fertilidade, à sabedoria e à criação. O amarelo-ouro, os peixes e os formatos espelhados evocam essa simbologia, enquanto o azul e as linhas curvilíneas remetem ao Oceano Atlântico, em referência à travessia forçada e às rupturas provocadas pela diáspora africana.

Segundo Larissa Vieira, o espelho aparece como uma tecnologia ancestral que orienta uma cosmovisão feminina e africana. “O espelho faz alusão a Oxum não apenas pela simbologia espiritual, mas como uma tecnologia que nos orienta a enxergar o mundo a partir de uma perspectiva feminina. As personagens refletem a si mesmas, sua ancestralidade e uma cosmovisão de origem africana”, explica. O contraste cromático evidencia as tensões históricas que atravessam a experiência negra no Brasil, ao colocar em diálogo a riqueza do legado africano presente na cultura e os impactos do apagamento e da violência histórica.
Sobre a artista
Natural de Aracaju (SE), Larissa Vieira, conhecida como Mundo Negro, é artista visual, empreendedora e educadora infantil. Graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), desenvolve trabalhos nas áreas de arte afro-brasileira, artesanato, moda sustentável, ilustração e muralismo. Sua produção é atravessada por referências da natureza e da ancestralidade africana, que orientam tanto os processos criativos quanto as escolhas estéticas.
Desde cedo em contato com a arte, Larissa incorporou a geometria como base para a construção de seus conteúdos visuais e para a modelagem inspirada em matrizes africanas. Sua poética se destaca pela forte potência visual e pelo diálogo com referências que vão das máscaras africanas às esculturas da cultura Nok, da Nigéria, além da pintura corporal de povos originários da Etiópia.
A relação da artista com a EGBÉ antecede esta edição. Larissa relembra que iniciou sua participação na Mostra por meio da Feira do Mangaio Negro, onde apresentava suas ilustrações. Para ela, a EGBÉ sempre foi um espaço de formação e aquilombamento. “É uma grande escola, que reúne quem produz e uma rede de artistas e iniciativas pretas. Estar à frente da identidade da 9ª edição potencializa artistas e a comunidade negra em Sergipe”, afirma.

A nova identidade visual marca um momento de amadurecimento da Mostra, ao mesmo tempo em que reafirma a continuidade de uma trajetória construída desde 2016. Para Luciana Oliveira, a renovação do visual significa continuidade. “São 10 anos de atuação e a certeza de que a criação da EGBÉ foi importante e a sua continuidade é fundamental. A EGBÉ reafirma seus compromissos históricos ao mesmo tempo em que se abre a novas linguagens, públicos e debates, acompanhando as mudanças do cinema negro e das lutas contemporâneas”, ressalta.





