Conheça Lilian Solá Santiago, homenageada da 9ª edição da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro

Cineasta premiada, pesquisadora, professora e guardiã da memória, Lilian Solá Santiago é a homenageada da 9ª edição da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro. Com reconhecimento nacional e internacional, sua trajetória vai além da realização de filmes: atravessa a formação de novos olhares, a preservação cultural e a produção de pensamento crítico sobre o audiovisual negro no Brasil. 

No campo do documentário, construiu uma trajetória dedicada à memória negra e indígena. Ao longo de sua carreira, realizou mais de uma dezena de filmes e criou, em 2016, a Casa da Memória Negra de Salto, espaço voltado à preservação dessas histórias. Entre seus trabalhos, destaca-se Família Alcântara (2006), codirigido com Daniel Santiago e considerado o primeiro documentário lançado nos cinemas brasileiros por uma mulher negra.

Nascida na periferia de São Paulo, Lilian construiu um caminho marcado pela busca por imagens capazes de contar experiências negras para além dos estereótipos. O contato com o audiovisual veio cedo, ao acompanhar os irmãos que já atuavam na área, despertando seu interesse pelo cinema. Mais tarde, na Universidade de São Paulo, onde cursou História, aprofundou suas inquietações ao investigar a presença negra na formação cultural brasileira, com atenção especial às raízes bantas, muitas vezes invisibilizadas.

Inspirada pela historiadora Beatriz Nascimento, passou a entender o cinema como um espaço de disputa e construção de memória. Para ela, a imagem é fundamental na recuperação da identidade coletiva. Essa visão também orienta suas críticas às representações da população negra no audiovisual, frequentemente associadas à violência, sobretudo a partir dos anos 1990. Seu trabalho surge como resposta a esse cenário, propondo novas narrativas e outros modos de ver.

Foi nesse mesmo período que Lilian participou das discussões do manifesto Dogma Feijoada, ligado ao movimento Cinema Feijoada, que defendia um cinema negro brasileiro com protagonismo e autoria negra. Mesmo inserida nesse contexto, por muito tempo foi a única mulher do grupo, enfrentando desigualdades de gênero em um meio majoritariamente masculino.

Uma filmografia contra o apagamento

Os trabalhos de Lilian destacam histórias negras e criam diálogos entre cinema, história, linguagem e artes cênicas, contribuindo para a compreensão da formação cultural brasileira. Sua filmografia é marcada pela autonarrativa. Ao se inserir em seus projetos, ela não apenas conta a própria história, mas também aproxima vivências de outras mulheres negras com trajetórias semelhantes.

Lilian Solá Santiago foi a primeira mulher negra a lançar um filme em salas comerciais durante a Retomada do cinema brasileiro (Foto: Inaê Coutinho)

Comprometida com a preservação da memória, deixou sua marca no cinema brasileiro com filmes como Eu Tenho a Palavra (2010). No curta, investiga as origens africanas no Brasil a partir da língua, revelando conexões entre Brasil e Angola por meio de palavras que seguem presentes na fala cotidiana.

Já em Balé de Pé no Chão: A Dança Afro de Mercedes Baptista (2005), registra a trajetória da bailarina considerada precursora da dança afro-brasileira, contribuindo para a preservação de sua voz e de sua imagem para as gerações futuras. Outro destaque é Família Alcântara (2006), realizado em parceria com o irmão Daniel Santiago. O filme traz um olhar sensível sobre o cotidiano, os afetos e os vínculos familiares, afastando-se de representações centradas na violência e dando espaço a experiências negras muitas vezes invisibilizadas.

Trajetória, formação e legado

Atualmente, Lilian Solá Santiago atua como professora e pesquisadora, contribuindo para ampliar o debate sobre cinema, memória e identidade. Doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP, integra o Grupo de Pesquisa LabArteMídia e desenvolve estudos voltados ao audiovisual e às questões raciais. Sua trajetória, antes marcada pela solidão de ocupar espaços historicamente negados às mulheres negras, hoje dialoga com uma nova geração de realizadoras e realizadores que disputam espaços de criação e decisão no audiovisual.

Entre o cinema, a pesquisa e a memória, Lilian Solá Santiago construiu uma trajetória que inspira novas gerações (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo a diretora da EGBÉ, Luciana Oliveira, a homenagem é uma forma de reconhecer esse percurso que, apesar de pioneiro, foi por muito tempo invisibilizado. “A escolha de homenagear a Lilian nesta edição parte do reconhecimento de sua atuação ao longo dos anos nas áreas de produção, direção e pesquisa dedicadas ao cinema brasileiro. Mesmo diante de uma estrutura ainda limitante no país, Lilian persistiu em ocupar seu lugar no cinema, tornando-se referência para muitas cineastas mais jovens”, afirma.

Nesse sentido, a homenagem também aponta para a importância de dar visibilidade a trajetórias que permaneceram à margem da história oficial do audiovisual, reforçando a necessidade de revisitar e valorizar quem ajudou a transformar o cinema no país.