Histórico

A EGBÉ – Mostra de Cinema Negro nasce em 2016, em Sergipe, a partir do enfrentamento direto às ausências históricas de pessoas negras no circuito exibidor brasileiro e às disputas simbólicas em torno da representação no cinema. Desde sua origem, a mostra se propõe a romper silêncios, ampliar acessos e afirmar o cinema negro como campo legítimo de criação, pensamento crítico e construção de memória.

Idealizada por Luciana Oliveira e João Brazil, a EGBÉ surge de uma escuta atenta aos territórios e de uma trajetória vinculada ao cineclubismo, à formação cultural e à articulação política no audiovisual. Sua criação dialoga com contextos locais de luta por visibilidade, permanência e fortalecimento das artes negras em Sergipe, sem perder de vista o cenário nacional do cinema negro brasileiro.

A mostra é realizada pelo Cineclube Candeeiro, em parceria com a Rolimã Filmes, atualmente também pelo Instituto EGBÉ, e desde o início foi pensada como um projeto político-pedagógico contínuo, comprometido com a formação de público, a mediação cultural e o encontro entre realizadores, pesquisadores e comunidades.

Território, curadoria e práticas formativas

Nascida em Aracaju, a EGBÉ expandiu sua atuação para o interior do estado, realizando exibições em escolas públicas, territórios quilombolas, comunidades periféricas e ribeirinhas. Essa interiorização se consolidou como política cultural, baseada na escuta, no respeito aos tempos locais e na construção de vínculos duradouros, deslocando o cinema negro dos centros tradicionais de exibição e aproximando-o dos territórios.

Ao longo de suas edições, a Mostra consolidou uma curadoria comprometida com epistemologias negras e com a pluralidade estética do cinema negro brasileiro e das diásporas africanas. Os filmes exibidos são colocados em diálogo com debates, rodas de conversa, encontros formativos e ações educativas, fortalecendo a mostra como espaço de reflexão crítica, troca de saberes e circulação de narrativas contra-hegemônicas.

Expansão, redes e reconhecimento

Em 2020, diante da pandemia da Covid-19, a EGBÉ se adaptou ao formato online, mantendo sua vocação para o encontro e ampliando seu alcance para mais de 180 cidades brasileiras. A experiência virtual possibilitou a expansão do público e o fortalecimento de redes, o que contribuiu para a consolidação do nome EGBÉ – Mostra de Cinema Negro e para a ampliação de seu escopo curatorial, incluindo produções internacionais das diásporas africanas.

Ao longo de sua trajetória, passaram pela Mostra nomes fundamentais do cinema negro brasileiro, como Adélia Sampaio, Severo D’Acelino, Edileuza Penha de Souza, Janaína Oliveira e Everlane Moraes, entre outras presenças que contribuíram para o fortalecimento da mostra como espaço de articulação estética, política e afetiva.

Quilombo audiovisual, identidade e continuidade

A EGBÉ se afirma como um quilombo audiovisual. Um espaço de ajuntamento, cuidado e continuidade, onde cinema, educação, memória e território se articulam para afirmar outras imagens possíveis, outros modos de existir e outras formas de narrar o mundo.

O nome EGBÉ tem origem na cultura iorubá e remete à ideia de coletividade, pertencimento e ação conjunta. Na tradição iorubá, o termo está associado a grupos unidos por um propósito comum, reforçando a noção de que força, memória e continuidade se constroem de forma coletiva. Essa concepção atravessa toda a identidade visual da mostra. A tipografia original foi criada por João Marques e, a cada edição, recebe intervenções de designers convidados, mantendo a marca em permanente diálogo com os temas, territórios e contextos políticos de cada edição. A identidade da EGBÉ é pensada como campo de memória, movimento e reinvenção, articulando ancestralidade e contemporaneidade como gesto estético e político.