A 9ª edição da EGBÉ – Mostra de Cinema Negro consolida o amadurecimento curatorial da mostra e reafirma seu papel como espaço de articulação estética, política e territorial do cinema negro no Brasil. A seleção de 2026 reflete esse percurso e apresenta um conjunto de obras que tensionam memória, futuro e cotidiano a partir de múltiplas experiências negras.
A curadoria desta edição apresenta cinco sessões que evidenciam o vigor do cinema negro contemporâneo feito no Brasil. Estamos colhendo os frutos de importantes políticas públicas, tais como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc, que ampliaram as possibilidades dos fazeres cinematográficos pretos, colocando o cinema no mapa de regiões que historicamente recebiam parcos investimentos para o setor, incentivando, assim, a construção de outras perspectivas sobre nosso passado, intervindo no presente e redesenhando as fabulações do futuro que foi colocado para nós. Desse modo, essa curadoria abraça uma diversidade estética e temática, com filmes que miram o diálogo sobre um futurismo possível, o amor preto e os desafios destes tempos de tantas emergências.
Ao longo das sessões, a Mostra se debruça sobre o cinema como prática de escuta, de reinscrição e de disputa simbólica. Muitos dos filmes aqui reunidos partem da memória — individual, coletiva, ancestral — como matéria viva, atravessada por afetos, lacunas e fabulações, e por novas possibilidades de historicidade. Ao revisitar territórios, corpos e narrativas silenciadas, essas obras tensionam as fronteiras entre documentário e ficção, real e imaginado, revelando os cinemas negros como um campo fértil de experimentação formal e política. São imagens que não se contentam em representar ou serem responsivas, mas que desejam intervir, deslocar sentidos e produzir outras possibilidades de leitura do mundo.
Esta edição da EGBÉ evidencia como o cinema negro contemporâneo se constrói em diálogo direto com os dilemas do presente: o trabalho precarizado, a exaustão dos corpos, as urgências ecológicas, as disputas por soberania e a necessidade radical de sonhar. Entre festas populares, sonhos guiados pela água, corpos que dançam, trabalham e deliram, os filmes afirmam o cotidiano como espaço de invenção e resistência. Em tempos de crise, essas narrativas apostam no afeto, na coletividade e na imaginação como tecnologias fundamentais de sobrevivência, apontando para um cinema que não apenas reflete a realidade, mas insiste em transformá-la.
Texto curatorial assinado por Angela Silva de Jesus (Alekole), Beatriz Vilela e Izabel Melo (Bel Melo)
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Filmes selecionados da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro
Sessão – Amor é Ação (82 min)
Como diria Bell Hooks, o amor não é só um sentimento, é ação. Nessa sessão, o amor das mães, filhas e avós ganha tela a partir de um conjunto de ações que sinalizam uma luta pela memória, pelo não embrutecimento de seus corações e a reescrita de nossas histórias.
Calmon – Dir. Joyce Prado – 2026 – SP – 25 min – Livre
Donas da Cultura Popular – Madá – Dir. Davi Cavalcante – 2025 – SE – 15 min – Livre
A minha saudade num retrato eu guardei – Dir. Mony Mendonça e Julie Santos – 2025 – 20 min – Livre
Em busca da riqueza (quase) esquecida – Dir. Naira Soares – 2025 – BA – 20 min – Livre
Sessão – Tecnologias Pretas (68 min)
Seja para nos curar dos traumas coloniais ou para construir outras possibilidades de futuro, nessa sessão a tecnologia ancestral preta é elaborada como um dispositivo que pode nos apresentar novas conexões com o porvir e o passado.
A Sombra de Um Futuro – Dir. Gabriel Borges – 2025 – PR – 19 min – 10 anos
Sertão 2138 – Dir. Deuilton B Junior – 2025 – PE – 19 min – Livre
Oriranti – Dir. Petyta Reis – 2026 – SP – 18 min – Livre
Não é exatamente amor – Dir. Janaína Santos Vasconcelos – 2025 – SE – 11 min – Livre
Sessão – Cotidianos em Estado de Invenção (57 min)
Caminhamos entre jornadas de trabalho exaustivas, atravessamentos urbanos, fantasias que assombram e gestos de reinvenção pessoal. Mesmo imersos em rotinas duras, encontramos brechas para sonhar, reorganizar nossos destinos e criar espaços de fabulação do comum, onde o ordinário se transforma em campo de resistência, liberdade e imaginação radical.
Praia das Artistas – Dir. Rosy Nascimento – 2025 – RN – 15 min – 12 anos
Samuel foi trabalhar – Dir. Janderson Felipe e Lucas Litrento – 2024 – AL – 17 min – 10 anos
Redestina – Dir. Mayara Mascarenhas – 2025 – MG – 14 min – Livre
Comigo Ninguém Pode – Dir. Madlene Delfino – 2025 – AL – 11 min – Livre
Sessão – Novas Encruzilhadas (65 min)
Em tempos de emergência climática, bigtechs, algoritmos e ataques constantes à soberania dos povos, surge a necessidade de reelaborarmos sobre o modo como vivemos em coletividade. São tempos de novas encruzilhadas.
Ainda escuto o céu embaixo d’água – Dir. Alice Lovelace, Céuva, Kalina Flor, Lua de Kendra, Marina Bonifácio, Morgana Neves, Nara dos Santos, Pérolla Negra e Samantha de Araújo – 2024 – AL – 13 min – 10 anos
Entre nós, vive o rio – Dir. Day Rodrigues – 2025 – SP – 14 min – Livre
Rapsódia em Azul – Dir. Marina Barancelli – 2025 – PR – 15 min – 10 anos
E seu corpo é belo – Dir. Yuri Costa – 2024 – RJ – 14 anos
Sessão – Corpo, Memória e Reconstrução (68 min)
O cinema aqui opera como gesto de reconstrução: de imagens ausentes e histórias fragmentadas. O corpo — individual e coletivo — é território onde se inscrevem ancestralidades, traumas, saberes e espiritualidades, tensionando as fronteiras entre o visível e o imaginado, afirmando a criação artística como forma de disputa narrativa e de reencantamento do mundo.
O Sonho de Anu – Dir. Vanessa Kypá – 2024 – PB – 16 min – Livre
Acupe – Dir. Rafa Martins – 2024 – BA – 7 min – Livre
Da Pele Prata – Dir. Safira Moreira – 2025 – RJ – 26 min – Livre
Vermelho de Bolinhas – Dir. Renata Fortes e Joedson Kelvin – 2025 – CE – 19 min – Livre
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Curadoria da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro




Coordenação de Curadoria
Jéssica Maria Araújo
Roteirista e curadora de roteiros e festivais de cinema, mestranda em Cinema e Narrativas Sociais (PPGCINE/UFS). Graduou-se em Audiovisual pela UFS. É roteirista associada à ABRA — Associação Brasileira de Autores Roteiristas e associada à APAN — Associação de Profissionais do Audiovisual Negro.
Curadoras
Angela Silva de Jesus (Alekole)
Mestra em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe. Bacharela em Cinema e Audiovisual pelo Departamento de Comunicação Social da UFS. Investiga processos de criação de roteiristas em recortes marginais. Atua profissionalmente como roteirista de projetos audiovisuais, com especialidade em narrativas de docficção, documentários e cinebiografias.
Beatriz Vilela
É especialista em arte e sociedade, mestre em Sociologia (UFAL) e doutoranda em Ciências Sociais (UFBA). Escreve e pesquisa sobre política pública para o cinema brasileiro e a recepção cinematográfica, com ênfase nos cinemas de rua, festivais e cineclubes. É integrante do Mirante Cineclube, onde tem atuado na curadoria e produção da Mostra Quilombo de Cinema Negro. É diretora do curta Essas coisas de cinema (2018), codirigiu o curta Subsidência (2020) e o álbum visual Presença (2022). Foi diretora de arte dos curtas Samuel foi trabalhar? (2021), Quebra (2024) e Se essas ruas fossem delas? (2024).
Izabel Melo (Bel Melo)
É professora adjunta no DCH I da UNEB e do PPGH, na mesma instituição. Doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA/USP, realizou Estágio Pós-Doutoral no mesmo programa. É autora dos livros Cinemas, circuitos culturais e espaços formativos: novas sociabilidades e ambiências na Bahia (1968–1978) e “Cinema é mais que filme”: uma história das Jornadas de Cinema da Bahia (1972–1978), co-organizadora dos livros Memórias e Histórias do Cinema na Bahia (vol. 1 e 2) e Curadoria em Cinema: do pensamento em ação, além de artigos e capítulos em livros e revistas. Seus interesses de pesquisa estão vinculados à história e historiografia do cinema, formação, cineclubismo e festivais. Também colabora com festivais e mostras, participando de diversas curadorias, palestras e júris.





